Infelizmente, o dia 14 de março de 2015 será lembrado por muito tempo. Não como algo positivo, mas como o dia em que 51 pessoas perderam suas vidas em um trágico acidente na Serra Dona Francisca. Muitos ainda lembram “como se fosse ontem” de todo aquele acontecimento fatídico. Certamente, alguns dos que leem este texto agora estão se questionando mentalmente: “Mas já faz 10 anos?”.
Acidentes no trecho da Serra Dona Francisca, na SC-418, são frequentes. Obviamente, nada se compara àquilo que aconteceu uma década atrás. Porém, tão intensos quanto os acidentes e as mortes neste pedaço da rodovia são os pedidos por melhorias. Essa será uma data que perdurará na memória de várias pessoas e algumas delas deixaram o relato do que viveram naquele fatídico dia.
Os relatos dos sobreviventes
O acidente com o ônibus da empresa Costa & Mar, empresa de turismo com sede em União da Vitória, no sul do Paraná, deixou cicatrizes, luto, mas também lições de superação e exemplos de vida. Uma delas é de Lucas Vieira, atualmente com 27 anos e morador da litorânea cidade de Itapema. Ele foi um dos oito sobreviventes. Tinha na ocasião do acidente apenas 17 anos. Perdeu na tragédia mãe, irmã, e também um pouco da inocência.
“Lembro de tudo, de todos os detalhes. Passei um bom tempo usando cadeira de rodas e precisando de cuidados de familiares”, conta. “Mesmo assim, a recuperação foi tranquila; o que mais machuca mesmo é sentimental, que é muito mais doloroso que a dor física e leva muito mais tempo para recuperação”.
Lucas encontrou a força para continuar. E para seguir em frente, um detalhe vivido ainda na fatalidade, é bastante significativo. Foi ele quem conseguiu sair, sozinho, de dentro das ferragens do ônibus e mesmo machucado, pedir ajuda. “Não sei exatamente como explicar, mas sou uma pessoa de muita fé e Deus me deu forças para chegar até lá em cima [na estrada]. Precisei pular para fora do ônibus e subir toda a ribanceira”, conta.
Mesmo após dez anos desde o acidente, o impacto da tragédia ainda é uma realidade presente nos pensamentos de Lucas, hoje pai de duas meninas (foto abaixo), marido e corretor de imóveis. Lucas ganhou uma chance de continuar vivo e faz da oportunidade, uma estrada sem curvas, banhada pelo sol da esperança.
O dia 14 de março também é uma data que ficará para sempre na memória de Elis Cristina Mazur. Na época ela tinha 21 anos, e seguia para Balneário de Coroados, em Guaratuba, com a mãe, dois sobrinhos e outros 55 passageiros. Para ela, a viagem tinha um propósito: fazer uma oferenda a Iemanjá.
Durante o percurso, Elis (foto abaixo) já tinha percebido algo de errado. Ela recorda que no meio da madrugada, o primeiro ônibus estragou. A embreagem não estava engatando e eles tiveram que ficar parados na BR esperando o próximo chegar. No outro dia trocaram de ônibus e pararam para almoçar em Rio Negrinho. Embora alguns passageiros quisessem voltar para casa, a maioria queria seguir viagem, e até então, o clima ainda era de animação. “A gente tirou foto com a minha mãe, com o meu sobrinho, mais um afilhado que a minha mãe levou junto, então aí estava todo mundo feliz”, comenta. Porém, duas horas depois de uma foto feliz, uma tragédia aconteceu, e hoje sorrir já não é mais tão simples.
Do acidente em si, ela não lembra muito. Quando acordou já no hospital, não sabia onde estava, nem o que iria fazer. Viver sozinha já não era mais uma opção. Nem ficar sentada sem ajuda. Atualmente ela ainda sente dores físicas e precisa passar por mais procedimentos médicos. No entanto, a dor que existe em seu coração, machuca mais. A vida continuou. Elis teve uma filha, uma casa para cuidar, e diariamente, situações para resolver. Porém, a saudade é imensa.
Confira o depoimento completo de Elis.
Centenas de socorristas e um só objetivo: salvar vidas
Muitos socorristas atuaram no acidente. E apesar de trabalharem em centenas de ocorrências, esta tem uma marca profunda. O acidente, registrado às 17h40, aconteceu cerca de 2,5 quilômetros após o mirante da serra. Um dos socorristas que participou da ocorrência foi o 3º sargento Valdir Adriano Pereira, do Corpo de Bombeiros de São Bento do Sul. Ele lembra que estava no quartel, na sala de TV, quando o alarme tocou. “Desde já sabíamos que havia caído um ônibus com múltiplas vítimas e necessitamos descer com rapidez e segurança com todo o efetivo acionado. Quando chegamos ao local, fomos direcionados para o acesso. À beira do asfalto o cenário era de caos”, lembra.
“No caminho encontramos equipes trazendo as pessoas vivas em macas. Quando chegamos no local, o ônibus estava sobre um riacho, em um clarão em meio às árvores que o ônibus abriu na mata”, cita Adriano, que atua há 30 anos como bombeiro.
A primeira visão da cena, segundo ele, era assustadora. “Alguns corpos continuavam em seus lugares, mas a grande maioria fora encontrado mais à frente do ônibus, empilhados um sobre o outro, pois pela cinemática do acidente foram quase que todos jogados para frente do ônibus para o lado direito, como que fossem dominós caídos e empilhados”, comentou o bombeiro.
Uma das cenas difíceis de esquecer, segundo ele (foto abaixo), é a cor da água do córrego onde estava o veículo. “Nunca esqueço que o córrego onde amarrávamos e ajeitávamos o corpo com nossa equipe, hora corria água limpa, hora sujava de vermelho com sangue das vítimas. É muito marcante isso. Seguimos nesse trabalho até todos os corpos retirados, aí começamos juntos aos colegas o trabalho de retiradas dos corpos presos às ferragens, onde mais demorou”, frisou.
Outro socorrista que esteve na cena foi o 2º sargento Claimir Bonassi de Paula (foto abaixo), também dos bombeiros de São Bento do Sul. Aposentando-se da função nesta semana após 30 anos de dedicação, Bonassi se recorda daquela que foi a maior ocorrência já atendida enquanto bombeiro. “Até chegar lá não sabíamos que eram tantas vítimas. A gente imagina que o ônibus tinha saído da pista, alguns feridos, nunca uma cena daquelas. Quando chegamos já tinham várias equipes no local e fomos designados para o local da cena, a zona quente, e começamos a atuar na retirada das vítimas. Saímos de lá pelas 2h30”, conta.
Para ele, essa ocorrência ficará marcada na memória. “Faz 10 anos, a gente tem por praxe tentar esquecer, mas cada vez que comenta toda aquela cena volta. A gente sente o cheiro de volta, isso fica no teu subconsciente e não apaga. Esse é um dos (acidentes) que volta mais fácil, um dos que mais marcaram”, ressaltou Bonassi.
Confira o depoimento do sargento Bonassi.
Atuação policial
O Policial Militar Rodoviário Itamar Endler jamais se esquecerá daquela tarde do dia 14 de março de 2015. Após trabalhar no policiamento da Festa da Ovelha, ele se deslocava sentido Joinville no momento em que foi abordado por populares na Serra Dona Francisca. Ao atender o pedido de socorro, Itamar não fazia ideia do cenário que se encontrava na mata logo abaixo da rodovia.
Ao deixar o posto, próximo das 18 horas, se dirigiu sentido Joinville e notou a presença de algumas pessoas desesperadas pedindo por ajuda, pois um ônibus tinha acabado de cair ali. Conforme seu relato, o silêncio no local era tenebroso. “Chegando mais perto ouvi alguns gemidos. Cheguei em uma janela e uma criança de uns três anos chorava e pedia pela mãe. Consegui tirar o vidro com auxílio de uma alavanca e resgatar a criança. Logo chegaram os bombeiros e a levaram para a ambulância. Continuamos no resgate, mas poucos estavam com vida. Conseguimos tirar mais 6 pessoas com vida, mas com muitos ferimentos e fraturas. Uma delas acabou perdendo a vida a caminho do hospital”, comentou o sargento.
Dentro do veículo havia apenas um amontoado de corpos. Quem sobreviveu ao impacto foram aqueles que caíram por cima dos demais. “Se eles estivessem com o cinto de segurança teria reduzido, no mínimo, a metade das mortes, não tinha ninguém de cinto. A hora que o ônibus caiu como um dardo na ribanceira, foi da velocidade que estava a zero. Todos que estavam no ônibus foram arremessados para frente”, explica o sargento.
Confira a reportagem em áudio realizada com o policial (o conteúdo pode ser sensível para algumas pessoas):
Obras na serra
Quem transita pela serra, percebe que ela precisa de melhorias. O governador Jorginho Mello (PL) apresentou de trabalhos previstos para a Serra Dona Francisca em evento na Associação Empresarial de Joinville (Acij) nesta sexta-feira. “Essa obra é uma das nossas prioridades no programa ‘Estrada Boa’. Infelizmente tivemos duas licitações que não deram certo. Já queríamos estar com essa obra concluída. Mas, como governo, temos o compromisso de realizá-la para proteger quem precisa passar pela serra. Serão as primeiras áreas de escape de uma rodovia estadual em Santa Catarina”, afirmou o governador.
Nesta semana, a Gazeta questionou a Secretaria de Estado da Infraestrutura e Mobilidade de Santa Catarina (SIE/SC) para obter informações sobre as obras. Na manhã de quinta-feira (13), a assessoria do órgão reafirmou que seguem os trâmites do projeto para implantação das duas áreas de escape, uma no Km 15 e outra no Km 17, nos arredores do mirante.
Como duas concorrências públicas recentes não foram exitosas, de acordo com a assessoria, um procedimento com dispensa de licitação previsto em lei está em andamento, cujo resultado para escolha da empresa deve sair “até o fim do mês, no máximo”. A SIE não informou, porém, os investimentos previstos. Mas, segundo o edital anterior, os valores devem ficar na casa dos R$ 35 milhões.
Idas e vindas em um trajeto sem melhorias
O dia pode estar ensolarado, nublado, chovendo ou garoando. Mas uma coisa é certa, o transporte não pode parar. Para muitos, descer a Serra Dona Francisca pode significar uma viagem a praia, ou uma ida aos shoppings de Joinville. Mas para Valmir da Silva Júnior (foto abaixo), mais conhecido como Raí, esse percurso, cheio de curvas e buracos, se tornou parte da rotina, há dez anos, quando iniciou no serviço de transporte escolar.
Ele já levou diversos alunos para as mais variadas faculdades da maior cidade de Santa Catarina. Viu muitos se formarem, alguns trancarem o curso e outros comemorarem a aprovação no TCC. Mas, pouco viu de melhorias nesse trecho, que já contabilizou diversos acidentes. Além de ser um percurso difícil, a falta de cuidados com a rodovia não ajuda no trajeto, ainda mais feito com automóveis maiores, como uma van ou um micro-ônibus, e transportando pessoas. Ele detalha que, trabalhando com esse tipo de transporte, o cuidado deve ser mais rigoroso ainda. Lembra que, para quem está na estrada, todo e qualquer motorista precisa ter cautela.
“Realizam apenas o paliativo que em poucos dias está tudo igual novamente, iluminação que tinha se perdeu e não foi mais consertada, única coisa de diferente realizada neste tempo todo foi dois paredões de terra em duas curvas da serra.”
A Serra, apesar de ser considerada também um ponto turístico, é uma ligação importante entre os municípios serranos do Planalto Norte e Joinville. Nessa rota, diariamente passam veículos de passeios, ônibus de viagem e claro, caminhões. Seja subindo ou descendo carregados, todos os dias encomendas vêm e vão. Ivan Gonçalves Cordeiro é um desses motoristas de caminhão, que tem essa rota como objetivo diário. Ele já tem 15 anos de profissão e atualmente trabalha em uma empresa de São Bento, que tem parceria com transportadoras em Joinville.
Apesar de gostar da profissão, e não se ver fazendo outro trabalho além desse, ele garante que transitar pela SC-418 é uma insegurança diária. O motorista também cita que enquanto dirige, percebe várias imprudências acontecendo. São veículos fazendo ultrapassagens em faixa dupla, alta velocidade e impaciência de alguns condutores, forçando a ultrapassagem. Mas ele acredita que a polícia vem desempenhando um bom trabalho com fiscalização, porém, o problema central é a má condição da via. “A Serra precisa de área de escape, talvez redutores de velocidade, na minha opinião”, menciona.
A equipe do Jornal A Gazeta também preparou uma reportagem em vídeo. Confira:
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