Assim como as pessoas, o ambiente de trabalho tem se transformado com o passar dos anos. Funções deixaram de existir, enquanto novas estão surgindo. A tecnologia trouxe novidades e apresentou novos desafio, fazendo com que as empresas tenham que lidar com essas mudanças, que são individuais e ao mesmo tempo coletivas. Para Magda Linzmeyer, psicóloga e palestrante, essa mudança de pensamento no que diz respeito à saúde mental dos colaboradores ganhou força após a pandemia do coronavírus. “Ali surgiu o home office e a opção do trabalho híbrido. Percebeu-se que, primeiramente por questões de saúde, não daria para ir todo mundo para a empresa. Assim, as pessoas foram vendo que trabalhar de casa era melhor do que ir todos os dias para o trabalho ou pegar um trânsito até lá. A pandemia teve total influência inclusive para termos hoje essas mudanças na NR-01”, ressalta.
Conforme a profissional, o trabalho sempre foi pautado na sobrevivência do indivíduo. “Para viver a gente precisa ter dinheiro e para ter dinheiro é preciso trabalhar. Antes, o trabalho era feito a partir de uma obediência cega, sem questionamentos ou espaços para se dar ideias. As pessoas foram então adoecendo, mas não se falava em adoecimento mental, por isso o corpo encontrava outras formas. Por isso, as pessoas desenvolviam um câncer, uma úlcera, uma gastrite, doença de pele. A dor emocional acabava saindo em forma de doença física”, explica.
Foi nos anos 1980 que o termo burnout surgiu, mostrando que o desgaste emocional também era algo para se preocupar. “Todo mundo quer ser bem visto e a procura pela alta performance desenvolve o burnout, uma doença relacionada ao trabalho. Nos anos 2000, com o avanço da tecnologia, não se tem mais uma divisão do que é vida pessoal e profissional. É como se você tivesse que estar disponível 24 horas por dia, mas sendo pago somente por 8 horas. A gente vem até a pandemia nesse ritmo, onde o descanso é visto como ‘vadiagem'”, pontuou ela.
O trabalho, segundo Magda, tem uma visão diferente para cada pessoa. “Tem gente que vai só para ganhar dinheiro, porque precisa pagar as contas, mas tem pessoas que se realizam e que se pararem de trabalhar, acabou o sentido da vida para elas. Tem também quem gosta do que faz, mas aquilo é uma ponte para outra realizações, como uma viagem, conquistar uma casa ou um carro”, ressalta.
Entre o tabu e a frescura
Falar sobre depressão, burnout ou ansiedade ainda é um tabu para grande parte da sociedade. Porém, as novas gerações parecem estar mais antenadas nesses temas, o que tem gerado choques de realidade dentro das empresas. “Dentro de uma empresa temos pessoas de 60 anos que acreditam que psicólogo é coisa de louco, que depressão e burnout são frescuras. Mas temos também os jovens que hoje falam muito sobre isso. Há pesquisas que mostram que os jovens a partir dos 18 anos falam sobre terapia, e isso é motivo de orgulho para eles”, frisa Magda.
Para ela, um salário atrativo é importante para o colaborador, mas a valorização vai além das cifras. “O salário é importante, é um dos motivos pelos quais a gente trabalha, mas você dá um aumento hoje, dois dias depois que ele recebeu o pagamento, já não vale nada. Ele já gastou, o dinheiro já foi em alguma conta. Agora, o funcionário que se sente bem trabalhando onde está, onde a voz dele é sempre ouvida, onde ele pode errar sem medo de ser mandado embora, onde pode atuar sem medo do modo como o chefe fala com ele, ele vai trabalhar mais feliz. E trabalhando mais feliz ele traz melhores resultados para a empresa”, ressalta.
Outra preocupação existente no ambiente de trabalho é justamente a inovação. As empresas querem sempre estar dentro das novidades, mas não há como inovar sem dar espaço para ideias. E quem conhece sobre o ambiente de trabalho é quem está dentro dele todos os dias. “Se as empresas conseguirem ter esse olhar de cuidado para os funcionários, os resultados vão ser melhores. Não há como chegar nos números sem cuidar de todo o caminho antes. As empresas que entendem isso tendem a ter resultados melhores”, finaliza a psicóloga.
Confira, a seguir, as demais matérias do caderno especial sobre saúde mental na indústria, produzido por A Gazeta:
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