A última terça-feira de cada mês é um tanto quanto diferente para os colaboradores da Artefama, tradicional empresa de móveis em São Bento do Sul. Um café da manhã é preparado para celebrar os aniversariantes do mês, que também fazem dinâmicas com a equipe de psicólogos. E tudo isso em horário de trabalho, inclusive com a presença do diretor da empresa confraternizando com os funcionários.
Essa é uma das ações realizadas pela empresa pensando no bem-estar dos colaboradores. “Quando fala em ambiente de trabalho, falamos não somente em fornecer benefícios aos colaboradores, estamos falando em condições de trabalhar a parte da saúde mental. Hoje, nosso objetivo é que as pessoas trabalhem e se sintam confortáveis trabalhando, que elas estejam bem. Enquanto elas estiverem bem fisicamente e com a saúde mental, o resultado para a empresa é outro”, explica Samia Maiara da Costa Grein, coordenadora de gestão de pessoas da empresa.
Pensando nisso, a Artefama tem desenvolvido programas voltados para aproximar os colaboradores, tanto os que atuam na produção como o administrativo e diretoria. E isso gera uma relação de confiança com a empresa. “A partir do momento em que eles se sentem acolhidos, se sentem também confortáveis no ambiente de trabalho e conseguem trazer situações para nós. Se estou com uma crise de ansiedade, por exemplo, para me abrir com alguém eu preciso ter uma relação de confiança. É um cenário complicado para as empresas, é preciso se adaptar com atividades e ações para que não haja a rotatividade. Esses programas não são o principal, mas ajudou bastante”, disse Samia.
Uma ação criada recentemente com foco no bem-estar do funcionário na empresa envolve o RH e os colaboradores de cada setor. Chamado de Juntos somos Arte, o projeto seleciona padrinhos e madrinhas dentro da produção. “Eles fazem essa parte de acolhimento de colaboradores novos e reportam situações que tem no setor para o RH. Temos esse elo de comunicação. O RH não consegue estar presente em todos os momentos, então eles são nossos olhos dentro da produção para nos trazer situações que antes não chegavam para nós”, frisa Samia.
Para desenvolver o projeto, esses padrinhos passaram por um treinamento para identificar situações dentro da empresa e realizar o primeiro acolhimento. “A gente trabalha muito essa questão do acolhimento, tanto dos que estão chegando como os que já fazem parte da empresa. A ideia é ter alguém para acolher, porque a pessoa chega num ambiente novo e não sabe para onde vai. Tendo essa pessoa para acompanhar uma ou duas semanas, ajuda ela a se entrosar com a equipe”, explica Gislaine Romaniuk, analista de Recursos Humanos e que também é psicóloga.
Um tema não tão novo
Apesar de ser um tema relativamente novo dentro da indústria, a questão da saúde mental já atinge os trabalhadores há vários anos. “Há 15 ou 20 anos não se ouvia falar em saúde mental, mas muitos já sofriam. As escutas que faço não são um atendimento clínico, mas são um direcionamento. Hoje é um tema em alta, e que bom que vem se falando disso. Temos que trabalhar para que as pessoas se aceitem e está tudo bem passar por isso”, diz Gislaine.
Como o ambiente dentro da indústria é pautado em metas e resultados, essa pressão acaba gerando problemas de ansiedade não apenas no ambiente laboral, mas também em casa. “As pessoas sempre associam que entram para dentro da empresa, tiram a capa de pessoa e vestem a de profissional, e isso não existe. As pessoas vêm com dores, com traumas e precisamos trabalhar isso. E as empresas que não estão trabalhando com isso com certeza vão ficar para trás. Vão ter uma rotatividade maior, as pessoas trabalham desmotivadas e isso vai gerando uma série de situações”, ressalta Samia.
Ainda, a empresa realiza um diálogo de segurança nos setores, relacionando a segurança e o bem-estar da equipe. “É uma conversa quinzenal e breve, de 10 minutos, onde os gestores usam para reforçar algumas situações. A ideia é reforçar a importância do colaborador. O primeiro tema que trabalhamos é que cada um é peça fundamental aqui dentro, então falamos da importância da presença deles. De modo geral, é trabalhar temas que fazem parte das relações humanas. Falar sobre EPI é importante, mas as pessoas precisam estar bem também”, completa Gislaine.
Confira, a seguir, as demais matérias do caderno especial sobre saúde mental na indústria, produzido por A Gazeta:
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