Quase meio milhão de afastamentos do trabalho por transtornos mentais foram registrados no Brasil em 2024, segundo dados do Ministério da Previdência Social. As 472.328 licenças médicas concedidas reforçam as mudanças na relação do homem e trabalho, aspecto estudado pela ergonomia, que não atua apenas nas melhorias de ferramentas, equipamentos e postura. Está também presente na parte de organização do trabalho, pensando no bem-estar do funcionário.
A ergonomia nasce no contexto da Segunda Guerra Mundial, com a intenção de diminuir as falhas dos caças de avião e melhorar o ambiente de trabalho. Com o passar dos anos, as relações entre homem e máquina evoluíram, novos modelos de trabalho surgiram e a tecnologia chegou com força, afetando não só a parte física, como cognitiva. Nesse contexto, a ergonomia passa a ser uma aliada para as empresas.
O professor de ergonomia do Instituto Federal Catarinense (IFC) – Campus São Bento do Sul, Bruno Guimarães, explica que a ergonomia trabalha com alguns pilares. “É um equilíbrio. Você tem que pensar no conforto, segurança e saúde do trabalhador, mas também na produtividade”, menciona ele, que é doutor em design na linha de pesquisa de Ergonomia e Usabilidade de Produtos e Sistemas de Produção.
Se antigamente a saúde mental não era abordada no contexto de trabalho, hoje em dia ela é difundida. “Um problema muito grande que a gente vê são as situações de estresse”, pontua Bruno. Esse estresse, segundo o professor, pode surgir por diversos fatores, desde exigência excessiva de produtividade ou até mesmo o medo de perder o emprego. “O estresse é uma situação em que você está correndo risco de vida”, explica.
O professor explica que o estresse vai acumulando e isso gera o aumento da liberação de cortisol, fazendo com que a musculatura fique tensa e rígida. “Quando a musculatura está tensa, rígida, o movimento não é feito de forma adequada. O músculo comprime, depois ele comprime os vasos, começa a faltar oxigênio nos músculos, porque não chega sangue. Isso é o trabalho muscular estático, isso é um risco e vai gerar lesão”, detalha.
Mais motivação, menos estresse
Além das questões ambientais, como temperatura, ruído e vibrações, outros fatores podem afetar o funcionário e consequentemente a produtividade, até mesmo situações externas ao trabalho. Aspectos como carga horária, exigências de produção, dimensionamento da equipe, autonomia, pausas, ginástica laboral, inter-relacionamento pessoal, motivação e o salário também podem repercutir. “Tem empresas que fazem ações para integração, entre muitas pessoas, momentos de lazer. Por que as empresas fazem isso? Tem a ver com motivação. Vai melhorar o relacionamento, melhorar o clima na empresa, a motivação, e diminuir o estresse”, pontua.
Para trazer o equilíbrio no ambiente de trabalho, a ergonomia analisa as tarefas e busca apontar problemas, para posteriormente propor melhorias. Pode auxiliar com os fatores psicossociais, através da organização do espaço, rotina, cultura da empresa e a comunicação. “A organização do trabalho vai atuar muito nisso. O dimensionamento da equipe. Quantas pessoas são necessárias para fazer [o trabalho]? Você vai dar autonomia para as pessoas ou não?”, comenta. “Quanto de carga horária é necessário para a tarefa, o trabalho, as atividades? Quem trabalha quantitativamente, tem que produzir tantas peças por dia, por hora. Então, você tem que ter um número ali que seja confortável, saudável para o trabalhador, mas também produtivo para a empresa”, complementa.
Bruno ainda destaca que ter um profissional capacitado na empresa, com relação à saúde e segurança do colaborador, pode trazer diversos benefícios. É esse profissional que faz o mapeamento dos principais problemas, tanto organizacionais quanto físicos, a relação de postura, movimento e ferramentas. Mas as mudanças levam um tempo para se concretizarem. “Não é hoje, leva um tempo. Você não pode comparar o desempenho do trabalhador antes da mudança e no dia em que inicia a mudança. Tem um tempo para ele se adaptar”, complementa, dizendo que aplicar saúde, segurança e trabalho é um investimento. “Cada um dólar que você investe, você retorna quatro”, encerra.
Confira, a seguir, as demais matérias do caderno especial sobre saúde mental na indústria, produzido por A Gazeta:
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