Os afastamentos do trabalho por problemas de saúde mental mais do que dobraram nos últimos dois anos. Segundo os dados compilados pela Série SmartLab de Trabalho Decente 2025, em 2022 foram registrados 201 mil benefícios por incapacidade temporária relacionados a esses transtornos, número que saltou para 472 mil em 2024.
Pensando nessas e em outras demandas de trabalho, a Norma Regulamentadora NR-01 passou por atualizações em outubro de 2024, incorporando formalmente o risco psicossocial, o que exige das empresas medidas práticas, sob risco de penalizações. Ednilson Ganzala, coordenador de Segurança do Trabalho da ArcelorMittal/Tuper, explica que a NR estabelece diretrizes que a área de segurança do trabalho e saúde devem seguir.
Isso está no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), ou seja, como a empresa vai avaliar e controlar os riscos e as responsabilidades, não só do empregador, como do empregado. São citadas, entre outros, as chances de acidentes mecânicos, biológicos e físicos. “E agora, com a mudança da norma, ela acrescenta os riscos psicossociais também, o que o trabalho afeta na saúde mental do colaborador. Essa conexão do trabalho e a saúde, o bem-estar dele”, menciona o coordenador.
Os fatores de riscos psicossociais são associados à organização do trabalho e às interações interpessoais, que podem afetar o bem-estar do colaborador no ambiente de trabalho. Apesar de inseridos recentemente na NR-01, os fatores psicossociais já eram abordados na NR-17, que fala sobre a ergonomia. Segundo a ergonomista da ArcelorMittal/Tuper, Thais Gramkow Piovesan, o psicossocial está relacionado ao trabalho e possui uma ligação com a ergonomia. “Ela vai verificar vários fatores, desde os fatores biomecânicos, mobiliários, equipamentos, organizacionais, ambientais e os psicossociais e cognitivos. Então, a NR-01 também é muito clara, porque ela precisa ter a participação do colaborador”, diz, ressaltando ainda a importância do treinamento com a equipe operacional, diretoria, gerência e liderança.
“Hoje, ter uma liderança bem capacitada, com uma comunicação que não seja agressiva, uma comunicação de engajamento, acolhimento, isso faz diferença. Faz diferença porque tem a retenção do colaborador, tem aumento da produtividade, diminui a questão de afastamento”, menciona Ganzala.
Adequações
Pensar no bem-estar do funcionário já virou regra em diversas empresas. E algumas ações para se adequar às exigências envolvem identificar quais perigos psicossociais podem ser originados no trabalho, controlar os fatores de risco e desenvolver programas de cuidados.
Outra medida, de acordo com a ergonomista, é olhar para o contexto inteiro. “Um bom posto de trabalho, adaptado para cada um, faz ter a qualidade de vida. Se estou seguro, eu tenho uma qualidade, tenho uma entrega melhor”, explica. A empresa em questão adotou outras ferramentas para melhorar a qualidade do trabalho e reduzir os riscos de acidente. Além de toda parte ergonômica, a ArcelorMittal/Tuper passou a usar, em 2024, uma ferramenta tecnológica para rastrear a saúde física e psicossocial de colaboradores antes do início da jornada de trabalho, atualmente apenas para os operadores de ponte rolante.
A solução funciona como um psicotécnico interativo, com o uso de totens instalados dentro da fábrica. Por meio da interação com um sistema de inteligência artificial, o trabalhador realiza testes de tempo de resposta e preenche perguntas subjetivas sobre seu estado emocional, qualidade do sono e uso de medicação, por exemplo.
Ednilson detalha que a ferramenta compara o desempenho individual com bancos de dados e o padrão de cada funcionário, permitindo identificar variações fora do habitual. “Ali conseguimos extrair muitos dados sobre a condição que ele se encontra naquele momento, e, como a tecnologia possibilita isso, já é disparado em mensagem para a liderança para fazer aquela abordagem inicial, fazer o acolhimento”, menciona.
A ferramenta não diagnostica doenças, mas serve como um sinal de alerta sobre o estado do trabalhador no dia, podendo mudar ele de uma função perigosa, como a movimentação de carga, para outro trabalho.
Confira, a seguir, as demais matérias do caderno especial sobre saúde mental na indústria, produzido por A Gazeta:
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