Qual é o valor do pertencimento?

Em meio à transformação dos meios de comunicação, a proximidade com o público mantém o jornalismo local relevante e conectado às comunidades

• Atualizado 1 meses atrás.

Lúcia Helena Vieira é Vice-presidente da Associação Catarinense de Imprensa (Foto: Divulgação)
Lúcia Helena Vieira
é Vice-presidente da Associação Catarinense de Imprensa (Foto: Divulgação)
Lúcia Helena Vieira é Vice-presidente da Associação Catarinense de Imprensa (Foto: Divulgação)

Em um mundo inundado por informações de toda parte, o que faz uma pessoa parar para ler uma notícia, ouvir uma rádio, abrir uma revista ou acompanhar regularmente determinado veículo de comunicação?

Uma das respostas talvez esteja em uma necessidade profundamente humana: o pertencimento. Pertencer é mais do que viver em um lugar. É reconhecer-se nele e, ao mesmo tempo, sentir-se reconhecido. É identificar as histórias que dão sentido à experiência coletiva.

Em busca desse sentimento, as pessoas procuram referências que lhes permitam compreender quem são, onde vivem e de que comunidade fazem parte. O jornalismo local ocupa um espaço essencial nessa construção. Não se trata apenas de saber o que aconteceu perto. Trata-se de encontrar na informação uma relação com a própria vida.

Essa procura permanece forte. O Digital News Report 2025, do Reuters Institute, constatou que 81% dos entrevistados nos 45 mercados pesquisados havia consultado, na semana anterior, pelo menos algum tipo de notícia ou informação local. O dado ajuda a explicar por que, ao contrário do que se chegou a imaginar num passado recente, o jornalismo local não desapareceu diante da internet, da concentração das empresas de comunicação ou da formação de grandes redes multiplataformas.

Ele se reinventou
O rádio, por exemplo, deixou de depender exclusivamente do alcance de suas antenas. Incorporou a tecnologia digital e, hoje, chega ao público também por sites, aplicativos, transmissões em vídeo, redes sociais, plataformas de áudio e podcasts.

Os jornais passaram a combinar a edição impressa com portais, newsletters, vídeos e atualização permanente. Novos veículos nasceram diretamente nas plataformas digitais, mas mantiveram cidades e regiões como referência editorial.

As revistas, por sua vez, vêm sendo redescobertas. Não pela retomada do antigo modelo de grandes publicações de circulação massiva, mas por meio de projetos editoriais voltados a cidades, regiões, setores profissionais, estilos de vida e comunidades de interesse. Relatório internacional publicado em 2025 pela Media Voices, com apoio da FIPP — rede internacional que reúne empresas e profissionais do setor de revistas e mídia editorial —, identificou uma retomada do interesse por revistas impressas, especialmente publicações independentes, segmentadas e de nicho.

O impresso não se resume no apego a um formato antigo. Ele oferece uma experiência sensorial própria, além de profundidade, identidade gráfica, permanência e circulação entre pessoas que compartilham referências.
Os números brasileiros também mostram um ecossistema em movimento. O Atlas da Notícia registrou, em 2025, 14.809 veículos jornalísticos em atividade no país, entre iniciativas digitais, rádios, jornais impressos e emissoras de televisão. O levantamento constatou ainda uma redução de 7,7% no número de municípios considerados desertos de notícias.

Os desertos existem justamente onde não há presença regular do jornalismo local. Sua existência demonstra, pela ausência, a importância desses veículos. Em muitas comunidades, os veículos locais não são apenas responsáveis por contar o que acontece no município ou na região. Muitas vezes, são também o único meio pelo qual a informação jornalística chega — sobre o estado, o país e o mundo.

O veículo local, nesses casos, cumpre uma dupla função: ajuda a comunidade a enxergar a si mesma e, ao mesmo tempo, conecta essa comunidade a uma realidade mais ampla. Quando o público reconhece a própria vida em um veículo, estabelece com ele uma relação diferente daquela produzida por outros conteúdos. Percebe sua presença como parte da vida cotidiana.

Esse vínculo também tem valor econômico. Um veículo local não oferece aos anunciantes apenas um número abstrato de leitores, ouvintes ou seguidores. Oferece uma comunidade identificável, formada por pessoas que vivem, trabalham, consomem, empreendem e tomam decisões naquele território.

A proximidade, portanto, não limita necessariamente o negócio. Pode ser justamente o que lhe confere relevância. As plataformas mudam. Os formatos se multiplicam. A circulação ultrapassa fronteiras geográficas. Mas permanece a necessidade de encontrar histórias que nos ajudem a compreender o mundo a partir do lugar onde estamos.

O jornalismo local continua nascendo, crescendo e se transformando porque responde a essa necessidade. Seu elo invisível com o público é o pertencimento: a possibilidade de reconhecer-se e de ser reconhecido. E, em muitas comunidades, é também o fio que as conecta ao restante do mundo.

Lúcia Helena Vieira
Jornalista e consultora | Vice-presidente da Associação Catarinense de Imprensa

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