No sábado (23), era por volta das 9 horas e a Estação Ferroviária de Rio Negrinho estava movimentada. O que se via eram turistas chegando, outros parados garantindo registros fotográficos e outros embarcando na Maria Fumaça, para o famoso passeio de Trem da Serra do Mar, como é chamado. A responsável pela operação é a Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF).
E o cenário, para quem reside pelos arredores, pode até tornar-se comum ao ver a locomotiva a vapor, mas, para quem vem de fora, os olhos chegam a brilhar de entusiasmo. Este é o caso de Jesiane Vegini Gesser, que, assim que desembarcou do ônibus, foi direto ver o imenso veículo. Ela veio de Massaranduba, em uma excursão, somente para fazer o passeio. “Estou bem ansiosa, me disseram que é um passeio bom e animado”, sorri.
Ao lado dela estava a tia, Ondina Volpi Tironi, que confessou que sempre teve o sonho de andar na locomotiva a vapor, da qual escutava falar, mas nunca conseguia vir. Quando soube que haveria a excursão, convidou os familiares e conseguiu estar presente. “Vou realizar meu sonho”, disse.
Quando o relógio marcou 9h30, a buzina avisou: era hora de partir. A primeira parada foi em São Bento do Sul, na Estação Ferroviária de Serra Alta, para uma visita ao Museu da Música Maestro Pedro Machado de Bitencourt. E, entre os comentários dos turistas, o que mais se escutava era que o passeio parecia uma verdadeira volta ao passado. O apito da locomotiva, a fumaça saindo pelos trilhos e o balanço do trem faziam com que muitos revivessem memórias da infância, enquanto outros imaginavam como eram as viagens de antigamente.
Foi justamente por isso que Claudemir Aguiar Fagundes saiu de Triunfo, no Rio Grande do Sul, para fazer o passeio. Ao todo, foram sete horas de viagem até chegar a Rio Negrinho, tudo isso para reviver sua infância. Ele conta que, quando era criança, tinha parentes em Santa Maria (RS) e, no final do ano, durante as férias escolares, fazia viagens de trem que, para a família, se tornavam um verdadeiro evento. Por isso, no sábado (23), ele também fez questão de trazer a esposa, Laurien, e a filha Laura, que tem apenas 9 anos.
A escolha por Rio Negrinho se deu porque descobriram que é o passeio de Maria Fumaça mais longo do Brasil, com 60 km de extensão, o que proporciona mais tempo de passeio. “A gente queria proporcionar para Laura este passeio, para ela criar as memórias. E aqui, é tudo muito bonito, Santa Catarina sempre nos recebe de portas abertas”, sorri. Ao longo do percurso, a família ficou encantada com cada paisagem, pelas belezas da serra e da Mata Atlântica, mas, para Laura, o que mais a impressionou foram as passagens pelos túneis, passando por quatro no Rio Natal e um em Corupá.
Trajeto de 60 km
De acordo com o chefe do trem, Everaldo Pilz, a maioria dos passageiros da Maria Fumaça é composta por moradores de várias regiões do país. Somente no vagão onde a equipe do jornal A Gazeta estava, havia a família de Triunfo (RS), além de turistas vindos de Blumenau, Joinville, Florianópolis e Assis Chateaubriand, no Paraná. “Este é o nosso objetivo, trazer turistas para a região”, fala.
Logo após a Estação de Serra Alta, a Maria Fumaça segue o trajeto até o bairro Rio Vermelho, ponto mais alto do passeio, com cerca de 820 metros de altitude em relação ao nível do mar. No sábado (23), cerca de 300 pessoas participaram do passeio. A locomotiva utilizada é do ano de 1945 e, na composição, são sete carros de passageiros.
Segundo Pilz, o Brasil é o único país que utiliza o termo “Maria Fumaça” para se referir às locomotivas, um jeito carinhoso de chamar a grande máquina a vapor. Após o almoço, servido no salão de festas da Capela Jesus Ressuscitado, na localidade de Rio Natal, os passageiros seguem a última parte da viagem.
Durante o trajeto, o trem atravessa viadutos e pontes, como a do rio Hansa Humboldt. Inclusive, em um trecho, a locomotiva acompanha o rio por cerca de 8 quilômetros na etapa final do passeio. Um dos destaques é a vista espetacular do Morro da Igreja, vista em boa parte do percurso.
Os passeios são mensais e contam com duas possibilidades: descer a serra de Rio Negrinho a Corupá no sábado ou subir a serra de Corupá a Rio Negrinho no domingo. Em maio, houve operação em dois finais de semana, mas a programação varia conforme o mês.
Com duração aproximada de cinco horas, o percurso é dividido entre cerca de três horas e meia dentro do trem e mais uma hora e meia destinada ao almoço. O serviço é operado pela Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), que há 33 anos atua no resgate, restauração e operação de trens históricos. A locomotiva utilizada é do modelo Mikado Baldwin, de 1945. Já no final do passeio, tem a opção do café colonial, este, servido em Rio Negrinho. Quem deseja fazer o passeio, basta acessar o https://passeiosdetrem.com.br.
Combustível
Quem é o responsável por fazer a Maria Fumaça ganhar vida é o foguista Maicon Ernesto Streit. A locomotiva começa a se movimentar a partir do calor gerado na caldeira. Ele explica que a lenha é queimada na fornalha, aquecendo a água até se transformar em vapor sob alta pressão. Esse vapor é responsável por movimentar os pistões da locomotiva, que, por sua vez, fazem as rodas girarem.
Ele conta com o auxílio de Adrian Augusto Bail, que é o maquinista em treinamento, que está aprendendo os comandos da locomotiva. “Se o trem está mais pesado, ele consome mais vapor e precisa de mais fogo e injeção de água fria para manter a pressão”, explica.
No trecho entre Rio Negrinho e Corupá, são consumidos em média cerca de quatro metros cúbicos de lenha. A velocidade também varia conforme o percurso: entre Rio Negrinho e o bairro Serra Alta, por exemplo, a média é de 20 km/h, enquanto na descida da serra chega a cerca de 25 km/h.
Durante o trajeto, o trabalho exige atenção constante. O foguista acompanha o nível da água, a pressão do vapor e o fogo na fornalha, garantindo o equilíbrio necessário para o funcionamento da locomotiva. O som do apito, o vapor saindo da caldeira e o movimento ritmado das rodas reforçam a experiência de um sistema que remete a outra época. É justamente essa combinação de técnica, história e nostalgia que explica o interesse de turistas de várias regiões do país, que chegam em busca de uma experiência que remete aos seus antepassados, quando o trem era a principal e muitas vezes a única forma de transporte no cotidiano das viagens.
Assista à reportagem em vídeo abaixo:




