A decretação da falência da Indústria de Móveis 3 Irmãos S/A, formalizada pela Justiça de Santa Catarina, encerrou uma conturbada tentativa de recuperação judicial e expôs um cenário de crise financeira, disputas societárias e suspeitas de ocultação de patrimônio. Com sede em Campo Alegre e filial em Caçador, a empresa teve a falência decretada pela Vara Regional de Falências de Jaraguá do Sul, após acumular uma exposição financeira estimada em R$ 133,9 milhões.
O montante engloba débitos concursais, sujeitos ao plano de recuperação, e extraconcursais, contraídos após o pedido de recuperação judicial. A dívida extraconcursal chegou a US$ 7,84 milhões, além de R$ 5,64 milhões, pressionada pela exposição cambial e pela paralisação das exportações.
A crise financeira foi agravada por uma disputa envolvendo a gestão da empresa. Sem matéria-prima, com 15 contêineres parados e faturamento zerado em junho, a diretoria original tentou transferir o controle da companhia para a Social Partners, por meio de uma operação estruturada como turnaround. O acordo previa um financiamento de R$ 5 milhões para retomar as atividades e preservar mais de 300 empregos diretos.
A Justiça, porém, não reconheceu a validade da operação. Segundo a sentença, o aporte representava apenas 3,73% do passivo e previa garantias consideradas inadequadas, entre elas a alienação de maquinários estratégicos e o redirecionamento de recebíveis da multinacional IKEA, principal cliente da empresa.
Para o Judiciário, a operação criaria uma espécie de “superpreferência”, retirando recursos que deveriam ser destinados aos trabalhadores e demais credores. A tentativa de mudança de gestão desencadeou uma disputa entre a antiga e a nova administração, com acusações de fraude, bloqueios de contas bancárias e quebra de confiança.
Esvaziamento patrimonial
Entre os fatores considerados para a decretação da falência está a suspeita de dilapidação do patrimônio da empresa. A Justiça apontou que a Móveis 3 Irmãos não prestou contas sobre o destino de R$ 3,25 milhões arrecadados com a venda autorizada de ativos no início do ano.
Também houve uma tentativa de venda de áreas florestais por R$ 300 mil, valor abaixo da avaliação mínima de R$ 867 mil prevista no plano de recuperação. A negociação foi barrada pela Justiça.
O Sindicato dos Trabalhadores (Siticom) e empresas fornecedoras também relataram a retirada de maquinários de grande porte da sede da empresa no início de julho. A situação já havia levado a Justiça do Trabalho a determinar o arresto e a lacração das unidades industriais para garantir o pagamento de verbas rescisórias.
Documentos bancários anexados ao processo também apontaram que pagamentos realizados pela IKEA, superiores a US$ 150 mil em junho, não teriam entrado no caixa operacional da empresa. Conforme os documentos, os valores foram direcionados para contas de terceiros vinculadas à antiga gestão, enquanto a conta principal da companhia ficou praticamente sem recursos para o pagamento da folha salarial.
Lacração e próximos passos
Com a decretação da falência, a Justiça determinou a imediata lacração das unidades da empresa em Campo Alegre e Caçador, com possibilidade de apoio policial. Também foram suspensas as execuções individuais contra a indústria, concentrando as cobranças no processo de falência.
O juiz determinou ainda o bloqueio de ativos financeiros, imóveis e veículos da empresa por meio dos sistemas integrados do Judiciário e encaminhou informações ao Ministério Público para apuração de eventual prática de crimes falimentares.
Confira a lista dos principais credores:




