Uma investigação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), aponta que um “comando central” do crime organizado do Rio de Janeiro, liderado pelo bicheiro foragido Bernardo Bello, atuava por trás de um esquema de fraude na venda de apartamentos de luxo em São Bento do Sul.
De acordo com documentos da investigação, o grupo comercializou, durante quase quatro anos, unidades do empreendimento Neo Garden sem o devido registro de incorporação imobiliária. Segundo o Gaeco, o esquema funcionava como uma pirâmide imobiliária, utilizando recursos de novos compradores para manter o fluxo de caixa, enquanto apartamentos eram revendidos em duplicidade ou até comercializados sem existir no projeto.
Uma análise inicial do Ministério Público aponta que um primeiro grupo de 11 vítimas acumula prejuízo de R$ 4 milhões. Os investigadores, no entanto, avaliam que o valor total pode ser muito maior, diante da existência de outras dezenas de compradores que ainda não foram contabilizados.
As investigações indicam que os empresários Angelo Luiz Duvoisin e Felipe Facco Seroque, presos preventivamente, atuavam sob orientação de Bernardo Bello, foragido desde 2022 e apontado como mentor de complexas redes de lavagem de capitais.
A conexão foi descoberta após a análise dos celulares apreendidos durante a operação. Nas conversas, os investigadores identificaram mensagens em que Daniel Adler, apontado como interlocutor, transmitia ordens atribuídas a Bello, reforçando que os empresários deveriam seguir suas determinações.
Em uma das mensagens obtidas pelo Gaeco, Adler afirma que “Bernardo não quer ponta solta” e orienta que uma transferência de R$ 10 milhões seja realizada de uma única vez, com parte dos recursos transportada em espécie. Em outro trecho, informa que os empresários deveriam viajar ao Rio de Janeiro para conhecer as operações que seriam reproduzidas na região Sul.
Segundo a investigação, o relacionamento entre o grupo e o suposto líder da organização ia além da troca de mensagens. Os promotores afirmam que havia reuniões em um escritório localizado na Avenida Faria Lima, em São Paulo, além de encontros na residência de um dos empresários, em Santa Catarina.
Empreendimento
As vítimas, conforme o Ministério Público, eram atraídas pela proposta de um empreendimento imobiliário de luxo em São Bento do Sul. Um vídeo divulgado pela construtora mostrava como seria o Neo Garden, com quadra esportiva, 60 apartamentos, quatro salas comerciais e a promessa de ser a maior obra em execução no município.
Entretanto, conforme o Gaeco, a comercialização ocorria sem o registro de incorporação exigido legalmente. A investigação também aponta um “carrossel” de fraudes, com venda duplicada de apartamentos para compradores diferentes e até comercialização de unidades localizadas em pavimentos que sequer existiam no projeto.
Com as obras abandonadas, novos projetos eram lançados para atrair mais vítimas e cobrir déficits anteriores. Para transmitir aparência de solidez ao negócio, o grupo chegou a manter uma loja do “shopping” da cidade.
As obras do Neo Garden chegaram a ser interrompidas. Em outubro do ano passado, a construtora publicou um vídeo nas redes sociais informando a retomada dos trabalhos. No entanto, segundo a apuração da reportagem original, o telefone informado para contato não recebe mensagens e não foi possível completar a ligação.
Outro sócio dos empresários, Geison Eduardo Tureck, também foi alvo de uma operação do Gaeco no fim de junho. Investigadores da Polícia Federal (PF) ouvidos pela reportagem original afirmam que Bernardo Bello pode estar fora do Brasil. O espaço está aberto para manifestação da defesa dos citados.
As informações são do portal Metrópoles.



