Era uma criança de dez meses. Pequena, frágil, precisando de carinho. Quando chegou à casa de Terezinha Alves e de seu marido, Gumercindo, em São Bento do Sul, tornou-se uma das primeiras acolhidas da família pelo Serviço de Acolhimento do município. A menina carregava as marcas de uma situação de violação de direitos. Sem saber, também mudaria para sempre a vida de quem a recebeu. Quando chegou a hora da despedida, veio o primeiro grande baque e também a motivação para continuar. “Se eu parar, tem mais criança precisando. Não foi só ela. Então, eu vou pensar nelas e vou seguir em frente”, lembra Terezinha.
Às vésperas do Dia Mundial do Acolhimento Familiar, celebrado em 31 de maio, ela segue no programa. Ao longo dos anos, 43 crianças passaram por sua casa, 43 histórias marcadas por dor, superação e recomeços. O Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora de São Bento do Sul é gerido pela Secretaria de Assistência Social e conta com equipe técnica formada pela coordenadora Heloisa Grossl Souza, pela psicóloga Mirela Carolina Fix, pela assistente social Viviane Aparecida Hinke e pela pedagoga social Ketlin Klein.
Uma criança só chega ao serviço depois de um caminho longo e delicado. A violação de direitos precisa ser identificada como grave, seja por negligência, violência psicológica, física ou sexual. A situação é avaliada pela rede de proteção e o caso é encaminhado ao Ministério Público e ao Judiciário, único responsável por autorizar o acolhimento. Segundo a coordenadora Heloisa, quando a família acolhedora é acionada, é sempre por determinação judicial, após se concluir que a criança não está segura no ambiente de origem.
A prioridade, conforme a legislação, é sempre a família acolhedora. Atualmente, o município conta com sete famílias cadastradas e ativas, com previsão de chegar a oito em breve. A maioria das crianças está na primeira infância, com até seis anos de idade. O tempo médio de permanência varia de seis a oito meses, embora a lei permita acolhimentos de até 18 meses.
Família acolhedora
Os critérios são objetivos: ter mais de 21 anos, não possuir antecedentes criminais, ter disponibilidade afetiva e de tempo, não ter interesse em adoção e residir no município há pelo menos seis meses, entre outros requisitos. Antes da habilitação, a equipe técnica realiza visita domiciliar.
Existe, porém, um requisito que nenhuma lei consegue definir por completo, a disposição para amar sabendo que a história terá um fim. Diferente da adoção, com a qual o acolhimento não deve ser confundido, o objetivo do serviço é sempre a reintegração familiar ou, quando necessário, o encaminhamento para adoção. A criança chega, é acolhida e, em algum momento, segue seu caminho.
A equipe técnica acompanha as famílias nesse processo, inclusive na hora da despedida. “É um momento delicado, mas as famílias estão cientes desde o começo”, explica Heloisa. Além do suporte técnico contínuo, as famílias recebem subsídio financeiro por criança acolhida. O serviço funciona em plantão 24 horas, sete dias por semana, incluindo fins de semana e feriados.
Tia de 43 crianças
Terezinha não planejou esse caminho. Em 2014, participava de um clube de mães quando ouviu falar do programa por meio de uma servidora pública. Conversou com o marido, buscou informações, reuniu a documentação e recebeu a visita da equipe técnica. Começaram os acolhimentos, inicialmente uma criança de cada vez, depois grupos de irmãos. “E daí não parou mais”, conta.
A frase é dita com a leveza de quem acumulou experiência, mas também enfrentou momentos difíceis. Em determinado período, Terezinha interrompeu os acolhimentos por dois anos para cuidar da própria saúde emocional. A casa ficou silenciosa, só ela e Gumercindo. Mas o vazio reforçou a certeza de que aquele trabalho já fazia parte de quem ela era. A rotina das crianças indo para a escola, voltando, jantando e compartilhando o dia havia deixado raízes. Retomou os acolhimentos e pretende continuar enquanto tiver saúde para isso.
As crianças atualmente acolhidas chegaram assustadas, o primeiro passo é construir confiança, não por discursos, mas pela presença diária, pela escuta e pela paciência. Terezinha diz a todas as crianças que sua porta está sempre aberta, que podem chamá-la a qualquer hora, inclusive de madrugada, para conversar ou simplesmente chorar. Há também espaço para brincadeiras. Terezinha ri quando alguém sugere que já passou da idade de brincar com crianças.
Como participar
O processo de seleção de famílias acolhedoras está sempre aberto. Interessados em conhecer o programa podem procurar a Secretaria Municipal de Assistência Social presencialmente ou pelo WhatsApp (47) 3633-7436.



