O Brasil registrou, na última semana, diversos casos de intoxicação por metanol após o consumo de bebidas adulteradas. Até o último domingo (5), o Ministério da Saúde contabilizava 225 notificações, sendo 16 casos confirmados e 209 em investigação, com 15 mortes notificadas no total, duas confirmadas em São Paulo e as demais em apuração. Os registros se espalham por 13 estados e São Paulo concentra 192 ocorrências. Inclusive, a situação já chegou na região, com um caso suspeito em Piên.
Mesmo que aqui em Santa Catarina nenhum caso tenha sido registrado até o momento, o tema ganhou relevante proporção e também desinformação para quem consome esses produtos. Em São Bento do Sul, o sócio proprietário e responsável técnico da Verve Destilaria, Ramon Dall Agnol, detalhou como o metanol surge, como é retirado no processo industrial adequado e por que a produção clandestina é a hipótese mais plausível para a contaminação em série.
“É importante ir à origem. Temos visto muitas informações na mídia, o que é bom para orientar o mercado, mas precisamos trazer informações verdadeiras e explicar de onde pode estar vindo o problema. O primeiro passo é de onde o metanol surge. No Brasil, ele surge basicamente das lavouras, ele é gerado através do processo de fermentação de cana, frutas e cereais diversos. Você pode ter um fermentado de grãos e cereais ou de frutas. Nesse processo fermentativo, surgem vários álcoois, como metanol, etanol, propanol e butanol. O único que pode ser ingerido é o etanol, o álcool etílico potável”, disse Ramon.
Segundo ele, o metanol nasce na fermentação e, quando o processo não é controlado, pode haver geração acima do esperado. “Começa no controle produtivo. Em fermentação de grãos e cereais, como é o caso de alguns destilados e na cerveja, o risco é mais baixo, porque os cereais não geram tanto metanol. Já os fermentados de frutas têm pectina, que é um precursor que favorece a formação de metanol. Por isso, o risco é maior em fermentados de frutas”, explicou.
A etapa crítica é a destilação, momento em que o metanol, por ser o álcool mais leve, sai primeiro do alambique. “Depois de fermentar o mosto, que é um xarope de açúcares convertido em gás carbônico, álcool e calor, precisamos extrair o álcool. Entra a destilação. O metanol é o primeiro a volatilizar, então, no início da destilação, fazemos o corte de cabeça, retirando esse excedente. Esse material pode ser usado para limpeza ou como combustível, nunca para consumo. Há formas de garantir que ele não siga adiante no processo”, afirmou.
Ramon descreveu o duplo controle adotado pela Verve, como exemplo. “Compramos álcool etílico potável de usina homologada, ou seja, que já sai sem metanol. Ainda assim, fazemos o duplo-cheque por destilação. No nosso alambique, aquecemos por banho-maria, os vapores sobem por uma coluna de destilação que promove refluxos, os compostos mais leves passam, os mais pesados retornam e o condensador resfria a fração útil. Realizamos o corte de cabeça em percentual acima do que a literatura recomenda, para garantir qualidade e prova real”, conta.
Contaminação
Questionado sobre como a contaminação pode ter ocorrido nos casos investigados no país, Ramon aponta o caminho mais provável. “O metanol é controlado pela Polícia Federal, você não sai comprando metanol. Outro ponto é que financeiramente, não faz sentido para o falsificador comprar metanol puro, até porque ele não quer perder o cliente. O que faz sentido é a usina clandestina. Por não ter CNPJ e registro, o falsificador não consegue comprar de usina homologada com nota e controle de qualidade. Ele compra de quem não faz o devido controle. Pense no percentual que eu cortei na cabeça durante a destilação. Uma usina clandestina, focada só em lucro, não vai descartar esse álcool. A concentração da cabeça pode ir junto e ninguém sabe qual concentração de metanol havia ali, nem qual foi o fermentado. Se for de cereais é mais difícil, se for de frutas a possibilidade é maior. O falsificador compra isso e amplifica o problema adulterando bebida sem redestilar. A principal causa, no nosso entendimento, é essa. Às vezes ele compra só o ‘corte de cabeça’ e mistura. Se ele redestilasse o destilado que veio da usina e cortasse de novo, talvez não teríamos esse problema. É o que tudo indica”, disse.
Outra linha de investigação citada em reportagens é a contaminação por lavagem de garrafas com metanol. Ramon considera a hipótese improvável quando se trata de indústria regular. “O esperado de uma indústria homologada é usar ácido peracético, um ácido orgânico com alto poder oxidativo, seguindo a ficha de segurança do produto para concentração correta. Esse produto não precisa de enxágue, ele volatiliza e não gera risco. Aqui na Verve, por exemplo, enxaguamos as garrafas com ácido peracético na concentração indicada, deixamos escorrer e o produto volatiliza. Para o metanol causar óbito, falamos de volumes acima de 30 mililitros. Uma garrafa teria de conter cerca de 30 mL de metanol concentrado e a pessoa beber a garrafa inteira. Acreditamos que isso seja difícil, embora em fábrica clandestina tudo seja possível”, comenta.
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Como evitar bebida adulterada e quem fiscaliza? Vigilância Sanitária de São Bento do Sul dá orientações.
Confira um vídeo sobre o assunto:





