Há situações em que o transtorno é inevitável. Obras em rodovias, especialmente em trechos complexos como a Serra Dona Francisca, exigem intervenções, demandam paciência dos usuários e inevitavelmente provocam impactos na rotina de milhares de pessoas. O que não é inevitável, porém, é a desorganização. O que não pode ser tratado como algo normal é a completa falta de respeito demonstrada com motoristas, empresas, trabalhadores e toda a população que depende da SC-418.
Desde a semana passada, o próprio Governo do Estado divulgava oficialmente, por diversos canais, que a Serra Dona Francisca seria interditada nesta segunda-feira, dia 1º de junho, para a realização de detonações de rochas. A informação foi amplamente repercutida pela imprensa regional e estadual, inclusive por A Gazeta, exatamente como deve acontecer quando um comunicado oficial é emitido. Diante do anúncio, motoristas reorganizaram viagens, transportadoras refizeram planejamentos logísticos, empresas adaptaram operações e inúmeras pessoas alteraram compromissos para evitar os transtornos causados pelo fechamento da rodovia.
Tudo isso para que, no momento em que a interdição deveria começar, simplesmente nada acontecesse. Sem aviso prévio. Sem comunicado oficial amplamente divulgado. Sem explicações claras. Sem qualquer demonstração de preocupação com quem havia levado a sério aquilo que o próprio governo informou durante dias. A notícia da transferência da interdição para o dia 8 surgiu de forma improvisada, repassada por moradores da região, enquanto milhares de pessoas tentavam entender o que estava acontecendo.
A pergunta que fica é simples: quem é o responsável por esse tipo de decisão? Foi a empresa executora da obra? Foi o governo? Quem determina se a rodovia fecha ou não fecha? E, principalmente, em que momento foi tomada a decisão de cancelar a operação programada para esta segunda-feira?
Porque é difícil acreditar que ninguém soubesse com antecedência suficiente que a detonação não seria realizada. Se havia algum impedimento técnico, operacional ou de segurança, a população tinha o direito de ser informada. Se a decisão foi tomada de última hora, a situação é ainda mais preocupante, pois revela uma falta de planejamento incompatível com uma intervenção de tamanha relevância.
O que não pode acontecer é transformar a população em mera espectadora de decisões improvisadas. Quem organiza uma viagem, quem transporta mercadorias, quem depende da rodovia para trabalhar ou atender clientes, precisa de previsibilidade. Comunicação pública não é favor. É obrigação.
Infelizmente, essa não é uma situação isolada. A falta de sintonia entre planejamento e comunicação tem se tornado recorrente nas intervenções da Serra Dona Francisca. Em diferentes ocasiões, surgem decisões que parecem ignorar completamente a dinâmica econômica e turística da região. Há fechamentos anunciados às vésperas de feriados, interdições previstas para sextas-feiras e, agora, uma transferência para uma segunda-feira, dia 8, que sucede um feriadão prolongado. Será que ninguém avaliou que o fluxo de veículos pode ser ainda maior justamente nesse período?
Não existe a possibilidade de concentrar esse tipo de intervenção entre terça e quinta-feira, quando os impactos tendem a ser menores? Será que é tão difícil construir um calendário que leve em consideração não apenas as necessidades da obra, mas também a realidade de quem utiliza a rodovia?
A Serra Dona Francisca não é apenas uma estrada. Ela é um eixo fundamental para a economia regional. É por ela que passam trabalhadores, turistas, caminhões, fornecedores, clientes e visitantes. Ela conecta negócios, movimenta o turismo e sustenta atividades que geram empregos e renda em vários municípios.
Ninguém está questionando a importância das obras. Pelo contrário. A população compreende que investimentos em segurança e infraestrutura são necessários, tanto nunca houve protestos ao anúncio de fechamento. O que não se aceita mais é a sucessão de falhas de comunicação, improvisações e mudanças anunciadas sem qualquer respeito por quem precisa se organizar.
A cobrança não é por algo extraordinário. Não se exige perfeição. Não se exige que problemas nunca aconteçam. O que a população pede é algo muito mais básico: planejamento, transparência e responsabilidade. Três elementos que deveriam ser obrigatórios em qualquer obra pública, mas que, infelizmente, continuam parecendo opcionais quando o assunto é a Serra Dona Francisca.
Conteúdo editorial publicado na edição impressa desta terça-feira, dia 2 de junho.



