Silenciosamente, a água chega às casas são-bentenses. Mas, antes de sair nas torneiras, mangueiras e chuveiros, ela passa por todo um processo. Até chegar à Estação de Tratamento de Água (ETA), onde são tratados aproximadamente 22 milhões de litros por dia, o suficiente para encher praticamente nove piscinas olímpicas, são quase dez quilômetros de percurso, passando por baixo de estradas de chão, asfalto, subidas e descidas. E, para responder às dúvidas sobre o tratamento, a reportagem de A Gazeta acompanhou todo o procedimento, começando pela barragem do Rio Vermelho, no bairro Rio Vermelho Estação.
Quando o Samae iniciou a captação no local, a barragem já existia, com outra finalidade. Mas, em 2004, foi reforçada para fazer um desvio da água até o ponto de captação. Valdecir Ribeiro, coordenador da ETA, comentou que o manancial tem boa qualidade, principalmente por ser preservado por meio do Pagamento por Serviços Ambientais (PSA). “Isso ajuda muito na qualidade da água e, claro, depois lá na eficiência do tratamento, que acaba refletindo o que é preservado aqui”, reforçou.

E uma curiosidade sobre o Rio Vermelho, além de ser a única fonte de captação do município, é que ele é o único que não faz parte da bacia do Rio Negro. É um afluente do Rio Itapocu, então desce para Corupá e Jaraguá do Sul. Assim como o rio segue seu caminho, também acompanhamos o trajeto até a captação.
A CAPTAÇÃO

Por meio de uma tubulação, a água da represa segue até a captação, poucos metros à frente. Ali, além do conjunto de motobombas, é o ponto de onde parte a água em direção à estação de tratamento. “A gente tem quatro conjuntos de motobombas aqui na captação, dois operando e dois em reserva. São 250 CV cada bomba, e você tem uma maior, que é a de 450 CV”, explicou Valdecir, citando que CV é a grandeza que mede a potência do motor.
O coordenador lembrou que esse volume chega bruto até a captação, ou seja, sem nenhum tipo de tratamento. Porém, no trajeto, passa por gradeamentos, o que impede a chegada de resíduos da natureza, como mato, galhos e sujeiras maiores. Depois, o recurso hídrico sai das bombas e motores e percorre, submerso, um tubo de 600 mm de ferro fundido, até o Parque 23 de Setembro, onde está localizada a ETA. “A gente retira 300 litros por segundo, às vezes 280, às vezes 250, conforme a demanda da cidade”, complementou Ribeiro.

NA ESTAÇÃO
Após os 10 quilômetros de trajeto, por meio da adutora principal, a água chega à ETA. A primeira etapa do processo é passar por um medidor de vazão para verificar a quantidade que está entrando. Por fatores físico-químicos, o primeiro produto adicionado é o hidróxido de cálcio, para aumentar a alcalinidade, melhorando a eficiência da coagulação e permitindo que os flocos se formem maiores e mais pesados para a remoção das impurezas.

“A gente adiciona o sulfato de alumínio, sendo o próximo produto aplicado no tratamento, para ele fazer, com o hidróxido de cálcio, com esse gel de cálcio, a floculação, que passará em alguns canais aqui”, comentou. Na ETA, o procedimento é visível. Ao percorrer o caminho, é possível observar a sujeira ainda diluída e, com o avanço do tratamento, ela começa a aparecer em forma de flocos.
DECANTAÇÃO E FILTROS
Depois da floculação vem a etapa da decantação. Como explicado por Ribeiro, consiste na diminuição da velocidade em que o líquido percorre a estação. “Quebrando essa velocidade, a água começa a passar mais devagar, ou com menor velocidade na estação, vindo para os decantadores”, disse.
No local, é possível observar a decantação ocorrendo ao olhar as canaletas de PVC que retêm os flocos de sujeira. Isso funciona justamente pela redução da velocidade do fluxo, que faz a sujeira se depositar. Mas não é apenas a água que passa por limpeza. A estrutura também é higienizada, com lavagem semanal. E assim, o recurso segue seu caminho por outras etapas.

Nessa fase, o líquido que chega com coloração marrom, típica de rio, começa a clarear. O próximo passo é passar pelos filtros. A ETA de São Bento do Sul conta com 11 filtros, responsáveis por filtrar o conteúdo antes de seguir o percurso. Diferentemente das outras fases, no filtro não é tão fácil visualizar. Porém, a equipe possui uma maquete mostrando a estrutura, com carvão ativado, areia e pedregulho.
“Esses filtros, só para vocês terem uma ideia, aqui a gente é mais rígido, porque a limpeza deles é feita com maior frequência. Em torno de 24 a 30 horas, realizamos uma retrolavagem em cada filtro, como se fosse a lavagem dele”, pontuou Valdecir.

SAÍDA DE FILTRO
Na saída do filtro, a água já sai clarificada, no entanto, ainda não está totalmente tratada. Ela segue para um poço de contato subterrâneo na Estação de Tratamento, onde recebe os dois últimos produtos do processo.
“A água filtrada já está com cerca de 99% das bactérias eliminadas. Ela já está clarificada, mas ainda precisa da dosagem de hipoclorito para eliminar qualquer patógeno que possa restar”, explica o coordenador da ETA. O hipoclorito é gerado por um equipamento da própria estação e garante que não haja contaminação microbiológica. Em seguida, é feita a adição de flúor, que auxilia na prevenção de cáries, principalmente entre crianças. “São os dois últimos produtos que a gente adiciona”, reforça.

Em alguns momentos, também é necessária a correção do pH. De acordo com o coordenador, a estação trabalha, normalmente, com pH em torno de sete, considerado neutro em uma escala de zero a 14. “É o ideal para não trazer problema de pele nem no cabelo”, afirma.
As dosagens aplicadas não são aleatórias, pois seguem os limites estabelecidos pelo Ministério da Saúde, que regulamenta os padrões de potabilidade no país. “O produto é dosado com consciência e da forma correta, para que tenha os residuais necessários e não haja problema para a população”, completa.
Confira a reportagem em áudio:
RESERVATÓRIOS
Após todo esse processo e trajeto, a água finalmente chega ao reservatório da ETA. Engana-se quem pensa que esta é a parada final. Além dos reservatórios do local onde o recurso é tratado, existem outros espalhados pela cidade. Ou seja, depois que passa pela etapa final, ela ainda segue até outros depósitos e só então vai para as casas da população.
Segundo dados do Instituto Água e Saneamento, 96,1% da população é atendida com abastecimento, frente à média de 89,6% do estado e 83,1% do país. E, para atender toda a demanda, esse processo descrito acima é realizado 24 horas por dia, sete dias por semana. “Durante as noites, esses reservatórios vão se enchendo e, com o passar dos dias, vão se esvaziando, e à noite vão se enchendo novamente, e assim segue sempre”, disse, complementando que na ETA são dois reservatórios de 500 mil litros. “Temos mais um retangular, do outro lado da estação, com mais um milhão e meio de litros.”

Valdecir frisou que o trabalho ininterrupto garante não apenas o acesso da população, mas também saúde. “E é importante salientar que a água tem que ser usada com consciência, sempre tentando controlar o consumo para não haver desperdício e para que ela esteja sempre disponível para todos nós”, finalizou o coordenador.

UM SERVIÇO IMPORTANTE
Vale destacar que a ETA localizada nas proximidades do Parque 23 de Setembro é a única da cidade. Sem ela, ou sem que o recurso chegue até ela, não há abastecimento no município. Isso foi percebido recentemente, com o rompimento da adutora. E quem passa por lá muitas vezes não consegue ver o trabalho acontecendo, mas há seriedade em cada etapa e testes diários, tanto do que entra quanto do que sai, para garantir a qualidade.

Enquanto a cidade dorme, o sistema continua operando, garantindo que, ao girar a torneira pela manhã, a água esteja ali, muitas vezes invisível no percurso, mas essencial em cada detalhe da rotina.
Confira a reportagem em vídeo e acompanhe nosso percurso com a água:

