Conheça a história dos cães heróis que atuaram em Brumadinho e se aposentaram no mesmo dia no Planalto Norte

Léia participou de dezenas de buscas nas regiões de Rio Negrinho, São Bento do Sul e Campo Alegre

• Atualizado 27 dias atrás.

Em 2019 Iron atuou em Brumadinho, Minas Gerais, após o rompimento da barragem da Vale (Foto: Divulgação / CBMSC / Ricardo Wolff)
Em 2019 Iron atuou em Brumadinho, Minas Gerais, após o rompimento da barragem da Vale (Foto: Divulgação / CBMSC / Ricardo Wolff)
Em 2019 Iron atuou em Brumadinho, Minas Gerais, após o rompimento da barragem da Vale (Foto: Divulgação / CBMSC / Ricardo Wolff)

É raro um pai e uma filha se aposentarem no mesmo dia. Mais raro ainda quando ambos são bombeiros militares. E praticamente impossível quando os dois têm quatro patas e passaram anos atuando em cenários de tragédia, buscas em mata fechada, soterramentos e ocorrências de alto risco em diferentes regiões do Brasil.

Mas foi exatamente isso que aconteceu na tarde desta sexta-feira (15), em Porto União. Iron, um labrador com mais de 10 anos de serviço, e Léia, sua filha, de quase 8 anos, foram aposentados oficialmente pelo Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina (CBMSC). O ato simbólico ocorreu durante a cerimônia de passagem de comando da Organização de Bombeiro Militar (OBM) de Porto União.

A despedida encerra não apenas duas trajetórias marcantes dentro da corporação, mas também um importante capítulo da linhagem de cães de busca do CBMSC, iniciada em 2003 com o lendário cão Brasil. Iron era filho de Brasil, o primeiro cão de busca certificado internacionalmente da corporação catarinense. Léia, por sua vez, é neta dele. Três gerações da mesma linhagem dedicadas ao salvamento de vidas.

Iron iniciou sua trajetória operacional em Xanxerê, ao lado do cabo Josclei Tracz. Depois de oito anos de atuação na região, acompanhou o bombeiro na transferência para Porto União, onde encerrou sua carreira. Ao longo da trajetória, participou de mais de 70 ocorrências, acumulando sete certificações, incluindo uma internacional, além de missões nacionais que marcaram a história do Corpo de Bombeiros catarinense.

Entre elas, está a atuação em Brumadinho, em Minas Gerais, após o rompimento da barragem da Vale, em janeiro de 2019. Iron integrou duas equipes enviadas por Santa Catarina para auxiliar nas buscas pelas vítimas da tragédia, que deixou 272 mortos. Durante uma das missões, chegou a sofrer uma perfuração na pata causada por um espinho, precisando passar por cirurgia emergencial em um hospital de campanha montado pelos bombeiros mineiros. Mesmo após o procedimento, voltou à ativa poucos dias depois.

Além das grandes tragédias nacionais, Iron também ficou conhecido pelo trabalho em buscas terrestres. O cão participou de ocorrências envolvendo idosos desaparecidos em áreas de mata, buscas por pessoas perdidas em regiões de difícil acesso e até localização de restos mortais em investigações policiais. Em uma das ocorrências, em Chapecó, ajudou a localizar ossadas humanas escondidas em um poço.

Já Léia construiu sua carreira ao lado do cabo David Canever, da OBM de Canoinhas. Filha de Iron e da cadela Malu, também operacional do CBMSC, ela foi treinada desde filhote para atuar em buscas urbanas, rurais e por restos mortais.

Em 2022, Léia integrou a equipe catarinense enviada para Petrópolis, no Rio de Janeiro, durante a tragédia causada pelos deslizamentos provocados pelas chuvas intensas, que deixaram mais de 200 mortos. No Morro da Oficina, região mais atingida, ela atuou lado a lado com o pai, Iron, em uma missão histórica para a corporação.

Além das grandes operações, Léia também participou de dezenas de buscas no Planalto Norte catarinense, especialmente nas regiões de Rio Negrinho, São Bento do Sul e Campo Alegre, auxiliando na localização de idosos, crianças e pessoas desaparecidas em áreas de mata.

Os cães operacionais do CBMSC vivem com seus condutores, integrando o ambiente familiar dos bombeiros. Eles não permanecem em canis e acompanham diariamente os treinamentos, deslocamentos e rotinas operacionais. Segundo os bombeiros, esse vínculo fortalece a confiança e melhora o desempenho durante as ocorrências.

Mesmo aposentados, Iron e Léia continuarão vivendo com suas famílias. A diferença é que agora deixam oficialmente as escalas operacionais e as missões reais de busca e salvamento. Ainda assim, segundo os condutores, os dois continuam ativos nas brincadeiras e treinamentos leves do dia a dia.

A aposentadoria conjunta também marca simbolicamente o encerramento de dois importantes ramos da linhagem do cão Brasil, considerado um dos maiores símbolos do serviço de busca do Corpo de Bombeiros catarinense. Falecido em 2020, Brasil participou de mais de 100 operações e ajudou a consolidar o reconhecimento nacional e internacional do trabalho realizado pelos cães de busca de Santa Catarina.

Agora, Iron e Léia encerram suas trajetórias operacionais com a mesma honra com que passaram anos ajudando a salvar vidas: juntos.

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