O bom humor e a lucidez de Evaldo Brososky guardam uma história de vida marcada por trabalho, memórias e personagens que ajudaram a construir São Bento do Sul. Aos 93 anos, ele relembra com riqueza de detalhes os 73 anos dedicados à profissão de barbeiro, exercida entre 1949 e 2022, período em que acompanhou de perto as transformações da cidade que escolheu para viver.
Nascido em Corupá, Evaldo chegou a São Bento do Sul em 1948, onde trabalhou em empresas como Artefama e Buschle & Irmãos. “Aí veio o inverno, tipo desse ano, violento, e fui embora para Corupá de volta. Não sou pinguim, né! Voltei e aprendi a ser barbeiro, em 1949. Lá eu aprendi com um barbeiro, ele tinha duas cadeiras e eu trabalhava na base de comissão”, lembra, com muito humor.
Mais tarde, durante o serviço militar em Joinville, conheceu outro barbeiro que o incentivou a voltar para São Bento do Sul e abrir um negócio. O convite se concretizou em 1954, quando Evaldo retornou em definitivo ao município. No ano seguinte, casou-se com Melita e construiu residência na área central da cidade, nos fundos da antiga loja Belga. “No dia seguinte que cheguei deu uma geada de leve e me assustei de novo, mas dessa vez não me atropelou”, relembra com humor.
Sua primeira barbearia funcionou em uma pequena sala ao lado da Padaria Fendrich, onde permaneceu até 1961. Depois, formou sociedade com amigos e mudou o estabelecimento para a região próxima à Celesc. Com o crescimento da cidade e a valorização dos imóveis no centro, decidiu, em 1995, instalar a barbearia em casa, onde atendeu por cerca de 30 anos. “O movimento era grande, a turma que conhecia vinha toda”, conta. Foi também nesse período que se tornou assinante de A Gazeta, desde 1995.
Ao longo das décadas, milhares de histórias passaram literalmente por suas mãos. Evaldo recorda costumes curiosos da época, como clientes que deixavam o chapéu na barbearia para garantir a vez enquanto resolviam outros afazeres. “Isso não vingou muito, porque depois queriam furar fila”, brinca.
Entre os episódios marcantes está o atendimento a clientes vivos, alguns com mais de 90 anos, e também a clientes já falecidos. “Cheguei a atender 12 clientes depois de mortos, dois deles dentro do caixão. Eram fregueses de muitos anos, não dava para dizer não à família”, relembra. Segundo ele, na época, esse tipo de serviço não era feito pelas funerárias, como ocorre atualmente.
Evaldo também destaca as mudanças na profissão e na cidade ao longo do tempo. Nos anos 1950, São Bento do Sul tinha menos de 20 carros, e o barbear era feito exclusivamente com navalha. “Tinha que ter quatro ou cinco navalhas no sábado. Às vezes vinha pedreiro com reboque na cara e lá se ia o fio”, conta.
A aposentadoria veio de forma forçada com a pandemia de Covid-19 e um diagnóstico de toxoplasmose, que comprometeu seriamente sua visão. “Foram mais de 200 comprimidos de antibiótico. Via muitos pontos pretos, não doía, mas não dava para enxergar”, relata. Mesmo assim, afirma que, não fosse o problema de visão, ainda estaria atendendo, mesmo que em ritmo reduzido.
Aos 93 anos, Evaldo Brososky segue como um personagem vivo da história de São Bento do Sul, símbolo de uma profissão tradicional e de uma cidade que cresceu junto com ele.






