Imagine dois cenários. O primeiro tem luz natural entrando pelas janelas, plantas, texturas e objetos que parecem contar histórias. O segundo tem paredes brancas, poucos móveis, linhas retas e espaços vazios. Em qual deles você escolheria ficar?
A resposta depende do gosto de cada pessoa, mas a comparação leva a uma questão interessante: será que a arquitetura e a forma como os espaços são planejados podem influenciar a saúde mental? A resposta é sim. Quem explica é a arquiteta e urbanista Andrea Bonotto, que se dedica ao estudo da relação entre ambientes, comportamento e bem-estar.
No mês passado, Andrea esteve em Amsterdã, na Holanda, participando de um simpósio internacional que reuniu cerca de 150 profissionais de 38 países. O encontro discutiu como os espaços construídos podem influenciar emoções, comportamentos e qualidade de vida, com participação de especialistas de áreas como neurociência, psicologia, antropologia, ecologia e saúde. O Brasil foi representado por apenas duas arquitetas, entre elas Andrea.
A participação ocorreu a partir da busca constante da profissional por conhecimento. Atualmente, ela cursa pós-graduação em Neuroarquitetura e Psicologia Aplicada ao Projeto, pela PUC/PR. Amsterdã, inclusive, é considerada uma referência em design biofílico, área que busca aproximar as pessoas da natureza por meio da arquitetura. “Quando vi, pensei: faz todo sentido. Sempre quis conhecer Amsterdã pelo urbanismo e esse é um tema que adoro”, conta.
O ambiente e as emoções
Ao longo dos cinco dias de programação, especialistas apresentaram pesquisas que mostram, por meio da neurociência e do design baseado em evidências, que o ambiente construído interfere no funcionamento do corpo humano. Estima-se que as pessoas passem cerca de 90% do tempo em ambientes construídos, seja em casa, no trabalho, na escola ou em espaços de lazer.
Segundo Andrea, os ambientes estimulam o cérebro constantemente e podem amenizar ou intensificar emoções. “Vamos pensar numa praça de alimentação de shopping. Aquilo não é um lugar para você relaxar. É projetado para ser uma coisa rápida: comer e ir embora. A luz é branca, é barulhento, não tem conforto nas cadeiras. Então você não está relaxando naquele lugar. O teu cérebro está em sistema de alerta e fuga”, explica.
Ela também destaca os efeitos positivos do contato com a natureza. A presença de elementos naturais pode contribuir para a recuperação do estresse, a melhora da atenção e a promoção do bem-estar. Iluminação, sons, texturas, formas, layout e materiais também são percebidos pelo cérebro e influenciam a relação das pessoas com os espaços.
Olhar mais humano para a arquitetura
Tradicionalmente associada a cálculos, medidas e projetos, a arquitetura vem ampliando o olhar sobre o ser humano. Cada vez mais, profissionais da área dialogam com campos como psicologia, antropologia, ecologia e neurociência para compreender como as pessoas percebem e utilizam os espaços.
Nesse contexto, a arquitetura pode contribuir para criar espaços que favoreçam o descanso, a produtividade, o acolhimento e a conexão com a natureza. “Os projetos novos que estão vindo hoje com esse olhar multidisciplinar, compreendendo mais o comportamento das pessoas, trazendo um pouco mais da antropologia, psicologia, filosofia e cultura, começam a projetar para mitigar essas sensações para que as pessoas se sintam melhores dentro dos lugares”, afirma.
A participação em Amsterdã foi o primeiro simpósio internacional de Andrea. A arquiteta, natural de Lagoa Vermelha (RS), atua há cerca de 20 anos na área e também morou nos Estados Unidos e no Canadá, experiências que ampliaram sua visão sobre arquitetura e urbanismo.
Desde 2021, São Bento do Sul é sua casa. Na cidade, encontrou uma conexão com a história, a cultura e a arquitetura local. “Eu adoro tudo que a gente pode dar novo uso, reviver isso e fazer essa mistura que acho que é hoje esse mix do contemporâneo com o antigo. Tenho muito respeito pela arquitetura antiga e local. Aqui eu me reconectei com esse lado mais da história mesmo, do significado”, conta.




