Uma jornada movida por superação, espiritualidade e resistência física. No início deste mês, um grupo de ciclistas do Norte de Santa Catarina, com moradores de São Bento do Sul, Joinville, Campo Alegre, Mafra e outras cidades da região concluiu a pedalada pelo Caminho da Fé, a principal rota de peregrinação do Brasil.
Sob a liderança do organizador Rafael Augusto do Carmo, os devotos percorreram cerca de 310 quilômetros entre Águas da Prata (SP) e o Santuário Nacional de Aparecida (SP), enfrentando um desafio técnico impressionante: cerca de 9 mil metros de subidas acumuladas pelas montanhas.
O desafio dos 310 km sobre duas rodas
A viagem começou de ônibus rumo ao interior paulista. A verdadeira peregrinação sobre duas rodas teve início logo em seguida, cruzando montanhas e estradas rurais, a maior parte delas concentrada no interior de Minas Gerais.
O trajeto foi dividido em quatro dias de intensa atividade física:
- 1º dia: 102 km até Andradas (MG), incluindo a temida Serra dos Lima;
- 2º dia: 79 km de percurso;
- 3º dia: 39 km, com a famosa subida da Serra da Luminosa;
- 4º dia: 92 km finais até a chegada ao Santuário.
Apesar do suporte de uma agência de turismo para o transporte de bagagens e hidratação, o ritmo foi individual. “Tem momentos em que você precisa ficar sozinho. Lá, o interessante não é chegar, é o caminho”, destaca Rafael.
“Não importa se você subiu o morro pedalando ou empurrando, o importante é ir”, completa o veterano Alessandro Demarchi, que já completou o trajeto seis vezes.
Histórias de superação e homenagens no trajeto
Para muitos, o Caminho da Fé é uma oportunidade de introspecção e cura. Fernando Luís Rank, que estreou no circuito este ano, utilizou o desafio como motivação para retomar seus treinos de ciclismo. No entanto, a estrada reservou algo maior. “O propósito que descobri lá foi a questão dos valores, de ser e não apenas ter”, reflete.
Já para Alexandre de Jesus Coelho, a segunda peregrinação teve um significado profundamente emocional. Em 2025, ele pedalou em memória da mãe. Este ano, o tributo foi para o pai, falecido recentemente. Para garantir a conclusão do trajeto aos 58 anos, Alexandre utilizou uma bicicleta elétrica assistida. “Cheguei sorrindo, feliz porque consegui. Enquanto tiver perna, vou continuar indo”, proferiu.
Fé, milagres e o desafio das serras
A rota também é marcada por pontos turísticos e de forte apelo espiritual, como o acolhimento do missionário Júnior Marques, em Estiva (MG), e o emblemático “Milagre do Km 100”, local que reconta a história da peregrina Luciana de Crescenzo, que teria sido curada da leucemia durante o trajeto.
Contudo, para testemunhar essas histórias, é preciso força nas pernas. O relevo exige muito preparo físico. Embora a Serra da Luminosa, na divisa entre MG e SP, seja a mais famosa pela extensão, os ciclistas apontam que os trechos mais duros e com subidas mais íngremes são a Serra dos Lima e a subida do Pantano dos Teodoros.
A chegada ao Santuário Nacional
Após quatro dias de acesso contínuo, o grupo avistou as cúpulas do Santuário Nacional de Aparecida. A chegada foi marcada pela forte emoção e pelo sentimento de renovação espiritual, coroando o esforço físico com a sensação de dever cumprido. Diante da experiência marcante, os ciclistas catarinenses já confirmaram o retorno para a próxima edição.



