Há negócios que atravessam décadas. Outros atravessam gerações. Mas poucos conseguem carregar junto a própria história de um bairro inteiro. Em Serra Alta, a trajetória da tradicional Casa Colonial se mistura ao crescimento da comunidade e às memórias de quem viu São Bento do Sul se transformar ao longo do tempo.
Fundada oficialmente em maio de 1954, a Casa Colonial nasceu em uma época em que Serra Alta ainda tinha poucos pontos comerciais. Segundo o empresário Gregório Kollross, hoje um dos rostos mais conhecidos do comércio local, o estabelecimento começou pelas mãos de familiares e antigos comerciantes da região. “Naquela época, praticamente só existia a Casa Colonial no bairro. Serra Alta era muito diferente do que é hoje”, recorda.
Gregório entrou na história da empresa em 1976, quando voltou do serviço militar e passou a trabalhar como funcionário no comércio. Poucos anos depois, em 1979, assumiu a sociedade da empresa ao lado de outros sócios. A partir dali começou uma caminhada marcada por trabalho intenso, dificuldades financeiras e muita persistência.
A Casa Colonial passou por diferentes endereços ao longo da trajetória em Serra Alta. Um dos primeiros pontos funcionava em um prédio que anos depois ficou conhecido como Bar do Bigorilho. Mais tarde, o comércio foi transferido para o local onde hoje está a loja Rumaco. Depois, a empresa passou a funcionar onde atualmente fica a Dibacenter, ainda em imóvel alugado. Enquanto mantinham o comércio ativo, os sócios começaram a planejar a sede própria.
O terreno atual foi adquirido da Sociedade Esportiva e Recreativa São Bento, onde existia um antigo salão. A partir dali, iniciou-se a construção da estrutura da Casa Colonial, com cerca de 440 metros quadrados, na Rua José Rückl. Gregório relembra que a obra avançava lentamente, enquanto conciliavam o pagamento do aluguel, a compra do terreno e os investimentos necessários para manter o comércio funcionando. “Foi muito difícil. Não sobrava dinheiro”, resume.
Na época, ele fazia praticamente de tudo. Era balconista, comprador, cobrador, atendente, ajudava na construção e ainda cuidava da parte técnica da loja. O comércio vendia de tudo um pouco: produtos a granel, roupas, calçados, presentes, peças de bicicleta, medicamentos veterinários e produtos agropecuários.
Pequena cidade
O crescimento de Serra Alta também aparece nos detalhes do cotidiano. Durante a entrevista, o som do trem cruzando a ferrovia próxima à loja interrompeu por alguns segundos a conversa, algo que para Gregório já virou parte da rotina depois de tantos anos no mesmo lugar. O comerciante acompanhou de perto a transformação do bairro, que deixou de ser uma região com poucos pontos comerciais para se tornar praticamente uma “cidade dentro de São Bento do Sul”, como muitos moradores costumam definir.
Hoje, Serra Alta concentra escolas, empresas, supermercados e grandes redes. Mesmo com todo esse desenvolvimento, Gregório acredita que os comércios tradicionais continuam tendo um papel importante dentro da comunidade.
A própria Casa Colonial acompanhou essas mudanças ao longo das décadas. O comércio enfrentou transformações no mercado, a chegada das grandes redes e também o crescimento das vendas pela internet. Ainda assim, segundo ele, existe algo que continua fazendo diferença: a relação construída com as pessoas. “Trinta anos atrás eu conhecia praticamente todo mundo da Serra Alta. Hoje o bairro cresceu tanto que eu não conheço nem 20% das pessoas. Mas é muito bom ver esse desenvolvimento. Filhos, netos dos nossos clientes vêm até aqui e é gratificante”, comenta.
Atualmente, são quase cinco décadas sob a administração direta dele, após os demais sócios seguirem outro rumo. Em junho deste ano, Gregório completa 47 anos à frente da Casa Colonial. Embora a empresa hoje esteja oficialmente no nome dos filhos, Diego e Débora, ele continua ativo no dia a dia da loja. “Não penso em parar enquanto tiver saúde”, diz.
Em meio às lembranças, aos primeiros anos difíceis e à evolução do bairro, Gregório se emociona ao resumir a própria trajetória. “É uma vida e uma conquista que veio do meu suor. A minha esposa é uma mulher de ouro, meus filhos também. Sou muito grato”, agradece.



