Barbeiro em São Bento, venezuelano comenta prisão de Maduro: “Não saí por escolha, saí por sobrevivência”

Venezuelano relembra a saída forçada do país, a morte do pai e a reação à prisão de Maduro

• Atualizado 6 meses atrás.

Robson diz que a prisão de Nicolás Maduro reacendeu a esperança do povo venezuelano (Foto: Jonei Schritki / A Gazeta)
Robson diz que a prisão de Nicolás Maduro reacendeu a esperança do povo venezuelano (Foto: Jonei Schritki / A Gazeta)
Robson diz que a prisão de Nicolás Maduro reacendeu a esperança do povo venezuelano (Foto: Jonei Schritki / A Gazeta)

Robson Castillo cresceu acreditando que jamais deixaria a Venezuela. A infância e a adolescência foram vividas em um país que, segundo ele, funcionava. Havia estabilidade, família por perto, sonhos possíveis. Nada indicava que, poucos anos depois, ele estaria vivendo em outro país, falando outra língua e reconstruindo a própria vida do zero.

Essa realidade começou a mudar, segundo Robson, a partir de 2013, com a morte de Hugo Chávez e a ascensão de Nicolás Maduro ao poder. Aos poucos, o cotidiano se transformou. A economia entrou em colapso, a liberdade de expressão passou a ser limitada e o medo se instalou na rotina de milhares de famílias. “Quem viveu as duas épocas entende. Antes de 2013, não existia problema. A gente tinha tudo. Nunca passou pela cabeça sair do país”, conta.

O impacto atingiu sua casa de forma direta. O pai de Robson era político e atuava no estado do Amazonas, na Venezuela. Após trabalhar com o governo, rompeu e passou a integrar a oposição. Em 23 de janeiro de 2019, durante protestos contra o regime, ele foi morto. “Meu pai morreu por lutar contra o que estava acontecendo. Quatro dias depois, minha família decidiu que eu precisava sair do país. Não era uma escolha. Era sobrevivência”, relembra.

Aos 18 anos, Robson deixou a Venezuela sozinho. A saída não foi planejada como um projeto de vida, mas como uma medida de proteção. O risco de prisão ou de sofrer represálias era real. Primeiro, seguiu para a Colômbia, onde permaneceu por alguns meses, até conseguir avançar para o Brasil. “Hoje, na Venezuela, basta pensar diferente ou falar diferente para ser preso. A liberdade de expressão simplesmente não existe mais”, afirma.

O Brasil como destino
Em janeiro de 2020, Robson entrou em território brasileiro pela região Norte e iniciou o processo de regularização junto à Polícia Federal. O Brasil permite que cidadãos venezuelanos ingressem apenas com um documento, como se fosse a carteira de identidade no Brasil, e tenham acesso à residência temporária, válida por dois anos. Após esse período, cumpridos os requisitos legais, é possível solicitar a residência por prazo indeterminado. “O Brasil te dá a chance de existir de novo. Com o documento, você pode trabalhar, abrir conta em banco, usar o sistema de saúde. Isso muda tudo”, diz.

Barbeiro desde a Venezuela, Robson encontrou na profissão uma forma de recomeçar. Depois de passar por Manaus, chegou a São Bento do Sul, onde um tio já morava. A adaptação não foi simples. O clima, a cultura e o idioma eram completamente diferentes. Ainda assim, ele se estabeleceu, trabalhou em barbearias da cidade, abriu o próprio negócio e construiu uma nova vida. Hoje, vive em São Bento com a filha Antonella e demais familiares, afirmando ter criado raízes no Brasil. “São Bento me acolheu e o Brasil me deu a chance de recomeçar”, destacou.

Esperanças
Na madrugada do dia 3 de janeiro de 2026, Robson acordou com uma mensagem da avó. A notícia se espalhava rapidamente pelas redes sociais, veículos de comunicação e aplicativos de mensagem. Segundo informações divulgadas por autoridades norte-americanas, Nicolás Maduro havia sido capturado em uma operação conduzida pelo governo dos Estados Unidos, sob ordens do presidente Donald Trump, no contexto de investigações que envolvem acusações de crimes internacionais.

O episódio teve ampla repercussão e gerou manifestações públicas diversas, incluindo posicionamentos contrários à ação por parte de lideranças políticas e figuras públicas de outros países. Para Robson, no entanto, o impacto da notícia foi profundamente pessoal. “Foi uma data que vai ficar marcada para todos os venezuelanos”, diz. Poucas horas depois, recebeu uma ligação da mãe, que hoje vive na Espanha. Do outro lado da tela, emoção e lágrimas. “Ela chorava de felicidade. Não porque alguém foi preso, mas porque foi preso quem destruiu um país, separou famílias e causou tantas mortes”, relata.

Robson faz questão de destacar um ponto que, segundo ele, muitas vezes é mal interpretado. “Ninguém está comemorando explosões, mortes ou violência em Caracas. A gente não comemora guerra. O que a gente comemora é a prisão de um homem que arruinou milhões de famílias”, afirmou. Para ele, o sentimento é de paz. “A dor não passa. Mas a justiça conforta”, resume.

Questionado sobre as discordâncias em relação à prisão de Maduro, Robson afirma que muitas críticas ignoram a realidade vivida pela população venezuelana nos últimos anos. Segundo ele, há uma ironia evidente em parte dos argumentos levantados após o episódio. “Muita gente fala agora que os Estados Unidos querem tomar conta da Venezuela por causa do petróleo, que querem ficar com a maior reserva do mundo. Mas ninguém era contra um governo que deixou o povo sem gás, sem gasolina, sem o básico para viver, mesmo tendo uma das maiores reservas de petróleo do planeta”, argumenta.

Segundo Robson, a escassez de insumos essenciais se tornou parte do cotidiano, apesar da riqueza natural do país. “Como pode um país com tanta riqueza não ter gasolina para o próprio povo? Não ter gás para cozinhar? A gente passava meses sem isso. Então quem estava sendo roubado?”, questiona.

Para ele, esse contraste ajuda a explicar por que muitos venezuelanos enxergam a prisão de Maduro como um passo simbólico de justiça, e não como uma disputa geopolítica por recursos. “As pessoas que criticam não viveram isso. Não perderam família, não passaram fome, não viveram a humilhação de um país rico com um povo pobre”, frisou.

Mesmo vivendo no Brasil, Robson conta que o medo ainda o acompanhou por muito tempo. Enquanto tinha familiares na Venezuela, a liberdade de se expressar parecia incompleta. “Aqui você pode falar. Mas lá alguém pode pagar por isso. Enquanto minha mãe e minhas irmãs estavam lá, eu ainda tinha receio”, conta. Segundo ele, a saída da mãe da Venezuela marcou uma virada pessoal. “Só quando ela saiu do país eu comecei a me sentir realmente livre para falar”, relata.

Robson acredita ainda, que a prisão de Maduro reacendeu algo que estava adormecido entre muitos venezuelanos espalhados pelo mundo.

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