A instalação dos canteiros centrais na Avenida São Bento foi o principal tema da audiência pública realizada na manhã desta sexta-feira (17), na Câmara de Vereadores. Durante a reunião, moradores, comerciantes e representantes de entidades defenderam mudanças no projeto de revitalização da via e pediram a paralisação imediata da instalação dos canteiros.
O plenário da Câmara ficou lotado antes mesmo do início da audiência. O presidente da Casa, Gilmar Pollum, disse que a reunião foi convocada em caráter de urgência após pedidos de moradores e comerciantes, sendo transmitida pelo Facebook e YouTube da Câmara. Segundo o presidente do Legislativo, foram convidados representantes do Ministério Público, Prefeitura, Secretaria de Planejamento (Seplu), Departamento de Trânsito (Detru), Secretaria de Obras, Polícia Civil e Celesc. Já no início, Pollum criticou a falta de representantes do Executivo municipal.
Uma enquete contando com 57 comerciantes, moradores e usuários da avenida apontou rejeição ao modelo atual dos canteiros. Dos participantes, 56 disseram ser contrários à estrutura e apenas um afirmou concordar com a instalação. A comerciante Eliane Smiguel Ruda foi escolhida para representar o movimento contrário ao formato atual dos canteiros.
Segundo ela, o grupo não possui ligação política e defende apenas uma revisão no projeto. Além da rejeição aos canteiros, a enquete apontou que 52 participantes não acreditam que a obra irá aumentar a segurança da via. Outros 49 disseram não esperar melhorias para o comércio, moradores ou fluxo de veículos.
Durante a apresentação, Eliane listou problemas relatados por moradores e empresários da região, como redução da largura da pista em alguns pontos, falta de área de escape para ambulâncias e viaturas, perda de vagas de estacionamento e dúvidas sobre a transferência dos postes para o canteiro central.
Segundo ela, a mudança dos postes pode exigir adaptações em imóveis que possuem ligação subterrânea de energia, mas ainda não há definição sobre quem seria responsável pelos custos. “Reiteramos que não somos contrários à realização da obra. Somos apoiadores de um investimento público que seja executado com qualidade, planejamento e responsabilidade”, disse na tribuna.
Anderson Xavier apresentou imagens mostrando dificuldades enfrentadas pela transportadora em que atua, após o início da instalação dos canteiros, próximo à UPA. Segundo ele, os caminhões já encontram problemas para sair do pátio e podem ter ainda mais dificuldades caso a calçada avance com o desnível previsto.
A moradora Sinara Ploszai Simões questionou o sistema de drenagem dos canteiros e relatou preocupação com o acesso às residências. Já o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), Alexandro Scherer, citou como exemplo os antigos canteiros instalados na região da Rua Jorge Zipperer, que foram retirados após colisões frequentes.
O advogado e morador do bairro Colonial, Éliton Debacker, também manifestou preocupação com a segurança, principalmente em relação aos postes ao meio da vida. Além disso, Debacker chamou atenção para o custo público de transferir toda a rede elétrica, despesa que, na avaliação dele, não será bancada pela Celesc, e sim pelo município, e para a burocracia que recairá sobre os moradores: quem tem ligação subterrânea precisará instalar um padrão novo de energia, com exigências como alvarás, habite-se e laudos técnicos.
O advogado também cobrou efetividade. Sugeriu que os vereadores tragam a opinião do prefeito sobre a obra e que, se as reivindicações não prosperarem, a população verifique com o Ministério Público a possibilidade de uma ação ou se unam em uma ação popular. “Isso aqui não pode ser só um muro de lamentações. Se o povo, em sua grande maioria, entende que não é prudente essa obra do jeito que está, a gestão pública tem que reavaliar”, defendeu.
Preocupação com as emergências
A presença de clínicas de atendimento à saúde próximas à Avenida São Bento foi um dos pontos mais debatidos durante a audiência. O médico Paulo Sérgio dos Santos, da Clínica Rim e Vida, citou que o projeto pode dificultar a circulação de ambulâncias que realizam transferências de pacientes para o hospital. Segundo ele, a combinação entre canteiros centrais, calçadas elevadas e veículos estacionados pode limitar os espaços de passagem, em direção à própria Unidade de Pronto Atendimento (UPA), por exemplo.
Representando o Corpo de Bombeiros, Amarildo de Jesus também alertou para possíveis dificuldades em ocorrências de emergência. Ele citou o risco de a corporação encontrar obstáculos para chegar até locais de incêndios ou acidentes. Como comparação, mencionou a Avenida dos Imigrantes, onde os canteiros existentes possuem áreas de escape que permitem maior mobilidade. A Polícia Militar também participou da audiência. José Rocha de Souza, representando o comandante do 23º Batalhão, destacou que a preocupação da corporação está relacionada à segurança e à fluidez do trânsito.
Comissão
Ao final da audiência, os vereadores defenderam a revisão do projeto. O vereador, Rodrigo Vargas (PP), solicitou a paralisação imediata da instalação dos canteiros. Segundo ele, a legislação permite alterações no contrato da obra e uma eventual redução dos custos poderia possibilitar investimentos em outras áreas do município.
Outra sugestão apresentada foi a criação de uma comissão especial, proposta por Vilson da Silva (PL) formada por vereadores e representantes da comunidade para acompanhar o assunto. Luiz Neri Pereira (o Magrão), Rodrigo Vargas e Cátia Friedrich demonstraram interesse em participar do grupo. Magrão também sugeriu uma alternativa ao modelo atual, com a utilização de divisórias móveis, semelhantes às utilizadas em alguns trechos da BR-101, permitindo alterações conforme a necessidade da via.
Outros vereadores reforçaram a necessidade de novos estudos, realização de testes com cones e participação do Executivo nas próximas discussões. Ao encerrar a audiência, o presidente Gilmar Pollum informou que a ata da reunião será encaminhada ao Ministério Público e utilizada pela Câmara no acompanhamento da obra. O presidente também relembrou que, em maio de 2025, a mesa diretora apresentou um pedido de informação questionando a existência de estudos sobre impactos econômicos e de mobilidade relacionados ao projeto.
Antes do encerramento, Eliane voltou a falar e afirmou que chegou a pensar em desistir do movimento. “Aqui eu não tenho CPF nem CNPJ. Estou representando a grande maioria que vive, trabalha e transita na Avenida São Bento”, declarou.




