Após três idas à UPA, criança é transferida às pressas de São Bento para Joinville com quadro grave

Após dias de sintomas ignorados, menino é internado na UTI e família denuncia negligência

• Atualizado 28 dias atrás.

(Foto: Zuciane Peres / A Gazeta)
(Foto: Zuciane Peres / A Gazeta)
(Foto: Zuciane Peres / A Gazeta)

O dia 3 de abril era para ser especial na vida do pequeno Matheus Correa, já que ele completava 8 anos. Mas, ao invés de comemorar ao lado da família, com bolo e presentes, a data acabou marcada por medo, correria e desespero. O menino precisou ser transferido às pressas para Joinville após passar mal gravemente, depois de procurar atendimento médico três vezes na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de São Bento do Sul. “Eu estava vendo meu filho morrer e ninguém fazia nada”, desabafa a mãe, Jéssica Paola Vicente.

Segundo ela, o atendimento recebido na unidade teria sido negligente e demorou para identificar a gravidade do quadro clínico do filho. A situação mobilizou bombeiros, médicos e resultou em dias de internação na UTI do Hospital Infantil Dr. Jeser Amarante Faria, em Joinville.

Para entender o caso, é preciso voltar ao dia 29 de março. Na ocasião, Matheus brincava normalmente em casa, no bairro Mato Preto, junto dos irmãos. No dia seguinte, começaram os primeiros sintomas. “Ele acordou com bastante febre, entre 38,5°C e 39°C. Pensei que fosse algo passageiro, uma gripe. Mas comecei a perceber ele amarelado e estranho”, relembra a mãe.

Com a febre persistente, no dia 1º de abril Jéssica levou o filho pela primeira vez à UPA. Ela conta que relatou ao médico que o menino estava há dias com febre alta e também reclamava de fortes dores no braço esquerdo. No entanto, segundo ela, nenhum exame foi solicitado naquele momento.“Eu pedi se não seria bom fazer um hemograma, só por desencargo de consciência, e ele respondeu: ‘pra quê, mãe? Você vai perder tempo aqui’. Disse que era só uma virose e mandou dar dipirona”, relata.

Mesmo medicado, Matheus não apresentava melhora. O menino seguia abatido, cansado e sem disposição para brincar. Já no dia 3 de abril, data do aniversário, Jéssica retornou à UPA pela segunda vez. Desta vez, exames como hemograma e raio-X foram realizados. Apesar das alterações nos resultados, a mãe afirma que o médico informou que o quadro era apenas viral, levantando ainda a suspeita de dengue. “Eu perguntei se ele tinha certeza, porque meu filho não tinha os sintomas clássicos de dengue. Mas ele disse que era isso e mandou voltar para casa”, conta.

Sem acreditar totalmente no diagnóstico, mas sem alternativa, Jéssica retornou para casa com o filho. Horas depois, enquanto organizavam uma pequena comemoração de aniversário, a situação piorou drasticamente. “Eu ouvi ele gritando ‘mãe, socorro’. Quando cheguei no quarto, ele estava convulsionando, roxo e sem conseguir respirar direito”, lembra. A família acionou o Corpo de Bombeiros. Segundo a mãe, Matheus apresentava febre de 40°C, pressão arterial alterada e baixa saturação de oxigênio. Eles foram levados novamente à UPA.

No entanto, o atendimento, segundo ela, voltou a demorar. “O bombeiro entrou com ele no colo e pediu urgência. Mas disseram que precisava esperar como todo mundo”, afirma. Enquanto aguardavam, Matheus continuava piorando. Foi então que outra mãe presente na sala de espera aconselhou Jéssica a insistir. “Ela falou: ‘corre e salva teu filho, porque ninguém vai fazer isso por você’”, relembra.

Desesperada, Jéssica começou a pedir socorro e cobrar atendimento imediato. Um médico clínico que não fazia parte da pediatria acabou se aproximando para avaliar a situação. Após verificar o estado da criança e os exames, a gravidade foi identificada. “O médico falou: ‘eu tentei ajudar, mas você precisa tirar essa criança daqui’”, relata.

Diante da situação, foi solicitada a transferência urgente para o Hospital Infantil Dr. Jeser Amarante Faria, em Joinville. Segundo a família, o pediatra que realizou esse atendimento não era o mesmo das consultas anteriores. Na madrugada do dia 4 de abril, Matheus chegou ao hospital infantil e passou por novos exames. O quadro já era considerado gravíssimo. “Os médicos falaram que não sabiam ainda o que ele tinha, mas que era uma infecção muito séria”, conta Jéssica.

Pouco tempo depois, o menino precisou ser encaminhado à UTI. “Me pediram para sair da sala e eu achei que ia perder meu filho ali”, emociona-se. Após dias de investigação, os médicos conseguiram identificar o diagnóstico: uma miosite, inflamação muscular causada por infecção viral, que acabou evoluindo e atingindo pulmão, baço e corrente sanguínea, provocando um quadro de sepse.

Segundo a mãe, os médicos explicaram que o tempo sem o tratamento adequado contribuiu para o agravamento da situação. “Eles disseram que, se os exames tivessem sido feitos antes, talvez não chegasse nesse ponto”, comenta.

Ao todo, Matheus ficou seis dias internado na UTI e outros seis dias no hospital. A alta ocorreu apenas no dia 16 de abril. Mesmo em casa, o menino segue em recuperação, sem frequentar a escola e evitando contato com muitas pessoas, já que o organismo continua fragilizado.

Agora, após viver dias de angústia, Jéssica decidiu tornar a história pública. O objetivo, segundo ela, é alertar outras famílias e cobrar melhorias no atendimento da unidade. “Graças a Deus eu tenho meu filho comigo. Mas eu não posso me calar. A gente procura atendimento porque está desesperado e precisa de ajuda. Falta mais humanidade, mais atenção. Não estou generalizando todos os profissionais, porque também existem os bons. Mas no caso do Matheus faltou competência sim”, afirma.

O que diz a UPA?
A Gazeta procurou o diretor da UPA, Rafael Schroeder, para comentar o caso envolvendo Matheus. Em nota, ele informou que a família registrou manifestação junto à ouvidoria da Secretaria de Saúde, posteriormente encaminhada à unidade. “Notificamos a empresa responsável pela equipe médica e o responsável técnico da UPA para levantar todos os questionamentos. Essa ouvidoria será respondida pelos canais oficiais e acredito que a família terá a devolutiva em breve”, informou.

Ainda conforme a nota, não é possível fornecer mais detalhes em razão da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). O diretor afirmou que a unidade preza pela qualidade e responsabilidade nos atendimentos e que está à disposição da família e da Secretaria de Saúde para esclarecimentos. “Se identificadas falhas, com certeza tomaremos as medidas cabíveis”, conclui a nota.

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