Jaques Ricardo Schwendner é a prova de que nunca é tarde para voltar a fazer o que se ama. Aos 73 anos, o simpático senhor vem se preparando para retornar aos palcos. Afinal, quem o conhece sabe e admira o talento musical. No entanto, devido a problemas de saúde enfrentados nos últimos 10 anos, ele precisou se afastar daquilo que tanto gosta. Agora, determinado a dar o seu melhor, vem ensaiando intensamente e chega a passar até 14 horas no estúdio.
Sua meta é quando completar 75 anos, colocar o pé na estrada e voltar a se apresentar em bailes, casamentos ou em qualquer outro evento para o qual for convidado. “Tem o idoso e tem o velho. O velho é aquele que não quer mais nada, que fica falando que não serve para mais nada. Mas não é assim, você sempre será capaz, precisa saber envelhecer. Eu ainda tenho muito para produzir, aprender e ensinar, porque a música é o grande amor da minha vida”, sorri.
Por enquanto, ele se apresenta em festas menores, com a presença de amigos e familiares, mas nada comparado aos tempos áureos de sua carreira, quando viajava com a banda Sonatas ou se apresentava com sua própria formação musical. O número de shows é incontável, mas todos permanecem vivos em sua memória.
De berço
Nascido em Rio Negrinho, quando tinha apenas três meses de vida, os pais arrumaram as malas e vieram para São Bento do Sul. Foi aqui que firmaram raízes e onde o amor pela música surgiu. Se hoje Jaques é músico de profissão, foi graças ao saudoso pai, Lauro, que foi responsável por apresentar-lhe as bases e dar de presente o primeiro violão.
Jaques começou a tocar aos 9 anos, sem estudos formais. Ele e seu pai aprenderam as notas apenas ouvindo. Aos 11 anos, entrou para o primeiro conjunto musical e, a partir daí, começou a subir aos palcos da vida. “Os primeiros bailes que toquei foi em paiol de milho, para 40 ou 50 pessoas. Empurrava o milho num canto, com lampião querosene e dale baile”, diverte-se ao lembrar.
A vida foi seguindo, até que com os 18 anos serviu no exército e residiu no Rio de Janeiro. Quando retornou ao município, o amigo Marcos Malewschiki o convidou para tocar na orquestra. Jaques aceitou na hora, mas quando chegou o dia do ensaio, não conseguiu acompanhar os outros músicos. Esse foi o pontapé que precisava para estudar música, e foi o próprio Marcos quem o matriculou na Escola de Música Donaldo Ritzmann. “Naquela época falei que era bobagem, porque sabia tocar de tudo. Mas na primeira música que toquei, não dei conta. Fiquei tão incomodado, porque dizia que tocava de tudo e, na verdade, não tocava nada”, conta.
Hoje, ele sabe tocar teclado, guitarra, contrabaixo, violão, gaita e saxofone. Continua fazendo aulas de acordeon e ainda pretende aprender viola, trompete e trombone. “Meu pai me deu a base, o Marcos investiu em mim e isso é algo que nunca vou esquecer”, relata.
Professor
Além de se apresentar em bailes e continuar aprendendo, Jaques também foi responsável por formar vários músicos da região. Chegou a dar aulas de violão na década de 1970 no Colégio São Bento, quando os Irmãos Maristas coordenavam o instituto, com mais de 100 alunos na época. Passou por um período dando aulas particulares em casa e, por 40 anos, foi professor de música na Casa da Cultura, em Campo Alegre.
Nesse ínterim, morou em Itapoá, onde foi maestro da banda marcial e ainda dava aulas de música. A rotina, claro, precisava ser conciliada com as aulas em Campo Alegre. Mas talvez, ao longo de sua vida como professor, os principais alunos que conquistou foram seus filhos, Patricia, Greicy e Jean Carlos, pois os três se envolveram com a música.
Greicy chegou a participar do The Voice em 2012 e agora se tornou professora de Jaques, ensinando-o a aprimorar a técnica vocal. Patricia também virou professora de música, enquanto Jean seguiu por outros caminhos profissionais.
Pausa na carreira
Se hoje Jaques passa a maior parte do dia em seu estúdio estudando, é porque, no passado, precisou dar uma pausa na carreira. O motivo foi o câncer de próstata que descobriu há quase 10 anos. Devido a esse problema de saúde, afastou-se do trabalho como professor e das apresentações. O período, claro, foi de incertezas e desafios, mas ele garante que nunca se deixou desanimar. Uma das características de Jaques é seu bom humor. Sempre, entre uma conversa e outra, ele solta uma piada para ver os outros felizes. “Além de fazer a gente crescer como ser humano, me faz bem. Tristeza, fica emburrado, com raiva, só traz doenças físicas e psicológicas”, expõe.
E esse foi o remédio — o bom humor — que encontrou para encarar o câncer e a vida longe dos palcos. Além da doença, recentemente começou a perder a visão do olho direito devido a diabetes. Depois da cirurgia, conseguiu estabilizá-la.
Após todos os percalços, algo que passou a inserir na sua rotina é a alimentação saudável. Em sua casa, cultiva a própria horta, além de outros hábitos que adotou e que o ajudam a manter a mente e o corpo sãos. “Muita alimentação saudável, muito líquido, muita garra e muita fé em Deus. Tem certas coisas que a gente não consegue enxergar e que são tão simples de serem feitas”, comenta.
Por fim, outra coisa que vem ajudando nos ensaios é a tecnologia. Como toca sozinho, já faz uso do pedal que simula a segunda voz e também estuda com os tutoriais que encontra no YouTube, além, claro, do auxílio das aulas da filha Greicy. Para Jaques, não há motivo para ficar parado, afinal, há diversas opções para continuar aprendendo e evoluindo. “Se você não tiver conhecimento, você não é nada e mesmo assim, você nunca é perfeito. Então, eternamente, você sempre será um aprendiz. Dedicação é primordial para tudo. O grande espetáculo da vida é você se sentir útil”, encerra.




